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Achatamento emocional

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Uma das regalias de ter transtorno bipolar é que você está sempre com o ânimo lá em cima, sem sono, criativo e pronto para dominar o mundo, enquanto em outros momentos está na pior, ansioso, fumando e bebendo demais e até mesmo tomar banho se torna um fardo.

Mas uma coisa que pouca gente sabe sobre quem tem transtorno bipolar e está em tratamento, é o achatamento emocional. Ou no termo técnico, emotional blunting.

Nesse caso, você está no meio termo de tudo, não sente emoções, tem dificuldade de expressar elas, até mesmo reagir a emoções dos outros, incontáveis foram as vezes que alguém riu e eu não consegui rir de volta, mesmo achando graça da situação.

Estou passando por essa fase.

No achatamento emocional tudo perde um pouco de sentido, mas não igual na fase depressiva. Você tem menos interesse no trabalho, no namoro, nos amigos, tudo que te dava prazer parece apenas um poço de tédio.

Isso é perigoso, porque pra quem estava acostumado com uma vida de altos e baixos, de euforia e depressão, estar estável pode ser assustador. Ao ponto de descontar isso em drogas e álcool.

Estou fumando mais, bebendo mais, abusando do Rivotril e procurando sempre alguma coisa pra fazer com um ar de ansiedade onde nada me apetece, até mesmo assistir um filme virou tarefa impossível, preciso fazer em partes.

Quando meu psiquiatra pediu pra descrever meu humor da última vez, eu disse que estava apático.

A origem da palavra apatia vem do sufixo grego, “a” que significa “sem” e do grego “pathos” que significa “emoção, sentimentos, sofrimento”. Originalmente apatia significava liberdade do sofrimento. No século 18 isso mudou para um estado onde a pessoa não sente emoções ou sentimentos, indiferença especificamente.

Voltando pra minha situação, a apatia com a vida do dia a dia vem tomando níveis desproporcionais. Minha dieta é um Snickers todo dia de café da manhã. Alguns pedaços de comida no almoço – porque fico sem fome por causa do Venvanse – e no final do dia como uma refeição maior porque sinto que preciso me alimentar bem pelo menos uma vez em 24h. Academia? Não piso há 6 meses.

No trabalho todos os projetos que toco parecem desinteressantes ou no mínimo chatos, ir a reuniões é um pesar, discutir ideias nelas então? Nem pensar. Entro as 10h da manhã e saio às 17h, porque não aguento mais o ambiente de trabalho por muito tempo.

Os amigos? Abandonei. Tenho amigos que considero praticamente melhores amigos que não os vejo a meses. Toda vez que alguém sugere marcar algo como uma balada ou bar, fujo igual diabo foge da cruz – ajuda também o fato de que devo me manter longe de drogas e álcool.

E nas burocracias do dia a dia? Nada de marcar corte de cabelo, nada de marcar médico, dentista, falar com o gerente do banco pra resolver aquele problema que existe há meses. Até minha lista de tarefas não é mais atualizada.

Todos esses “sintomas” não devem ser confundidos com fase depressiva nem letargia, não ando ansioso desproporcionalmente, dormindo demais ou triste de forma geral, apenas num meio termo morno onde nada não fede nem cheira.

Sabe quando você se sente estável demais que chega a um ponto onde você não sente mais nada?

E sabe o que está causando tudo isso? Um ótimo tratamento contra transtorno bipolar. Meus estabilizadores de humor estão funcionando tão bem que eu fico estável demais, e esse é o problema.