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Como manter a saúde mental em época de eleições

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Ter transtorno bipolar me ensinou a lidar com os altos e baixos da vida como ninguém. Um dia você acorda sem vontade de existir, outro com animação pra dar e vender. O atual cenário político do Brasil está muito polarizado, este segundo turno só tornou as coisas piores e a cada lado que você olha, tem alguém falando de política, noticiando política ou postando sobre política. Não dá para respirar.

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A situação de medo e falta de esperança foi comprovada por pesquisas. Em levantamento realizado no dia 2 de outubro com 3.240 eleitores de 225 municípios, o Datafolha, além da intenção de voto, fez a seguinte pergunta: “Quando pensa no Brasil de hoje, você sente…?”

O resultado mostrou que existe uma nuvem bem carregada pairando sobre a cabeça da população: 88% se declararam inseguros, 79% tristes, 78% desanimados, 68% com raiva, 62% com medo do futuro e 59% com mais medo do que esperança. No geral, o pessimismo foi mais relatado por mulheres, pelos mais jovens e pelos mais instruídos.

Vejo muito de meus amigos que não sofrem de transtornos psicológicos passando por barras que eu estou acostumado a passar, sem saúde mental a gente não consegue trabalhar, não tem esperança, não consegue conversar nem viver. Ficam aqui minhas dicas de como passar por esse período da melhor maneira possível.

Buscar o equilíbrio

Em situações de estresse generalizado, o importante é encontrar o meio termo. Em toda situação existe uma escolha: vivenciá-la com saúde ou estresse. A maneira como você escolhe vivenciar a situação política atual ajuda na sua saúde mental.

Opposite

Busque levar discussões e opiniões políticas numa boa, sem despejar medos, frustrações e ira nos outros. resultando em amizades desfeitas e parentes se distanciando.

Afastar, bloquear ou “eliminar” o outro lado da discussão também não é saudável, segundo especialistas. isso cria uma bolha social com um abismo muito grande da realidade.

“O que todos necessitam agora, mais do que nunca, é compreender a fundo seus sentimentos e aprender a debater sem brigas e ataques.” Afirma o psicólogo e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (Casme), Yuri Busin.

É preciso resistir primeiro nas pequenas coisas do cotidiano. No amor, na amizade, no sexo, no prazer de ver um filme ou ouvir uma música, num café bem coado, no barulho de chuva…

Aprendam com as crianças que leram Harry Potter: se os dementadores (criaturas que controlam, oprimem e derrotam roubando a alegria) se aproximarem, comam chocolate para combatê-los. Parece uma referência demasiado infantil, mas J. K. Howling sabia o que escrevia: a comida e a música são o que faz a maioria dos refugiados conseguirem viver longe das suas pátrias e mátrias, porque acionam lugares da mente que a opressão não alcança. Só com a batalha ganha dentro de cada um, é possível ter mais força no que o poeta do Xingu Élio Alves da Silva refere-se como “Eu+ Um”. Sozinhos nós contamos apenas como um. Como Um+Um+Um… nós somos milhões.

No final do dia a ideia é não se levar tão a sério. Menos convicções de que sabemos de tudo.

Meditar

Meditação, em especial o método mindfulness ajuda você a colocar a saúde mental em dia.

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Meditar é basicamente aprender a controlar os sentimentos e ordenar a mente para o foco que desejar. Com meditação é possível aprender a controlar os pensamentos sobre política como coisas transicionais, que chegam e passam, sem deixá-los “entrar” e nos afetar.

Se você está começando nesse método, recomendo o aplicativo Headspace (em inglês), ele guia você através de sessões práticas e rápidas de 5 a 20 minutos, a sua escolha. Pesquisas mostram que meditar usando o método mindfulness diariamente ajuda a melhorar o foco, stress, humor, agressão, ansiedade, dentre outros.

Se mindfulness não é sua praia, tente yoga, tai chi ou outras práticas de meditação que existem por ai, sua mente agradece.

Eu medito diariamente e o resultado é fantástico, consigo gerenciar minha ansiedade de forma muito melhor nesse período de eleições.

Cuidar da sua saúde

É comum em momentos estressantes deixarmos de lado alimentação e exercício. Isso não pode acontecer nessa época de eleições.

Existem grupos de alimentos que ajudam a controlar o estresse, como atum, e salmão por exemplo. Ricos em Omega-3, ajudam a deixar sua mente mais saudável e clara.

Laranjas são ricas em vitamina C, magnésio e cálcio, que ajudam a regular o cortisol (hormônio do estresse).

Espinafre também é rico em magnésio. O estresse esgota o magnésio em seu corpo, que resulta na estimulação da produção de GABA (Ácido gama-aminobutírico) e ajuda a produzir dopamina. Outros alimentos que contribuem para aumentar a quantidade de magnésio em seu corpo são amaranto, sementes de girassol, tofu e arroz selvagem.

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Abacate, pepino, mariscos, amêndoas, iogurte e outros alimentos também ajudam.

Exercício ajuda – e muito – a controlar o estresse. Exercício físico produz endorfinas, que ajudam a controlar dor e equilibrar o sono, que em contrapartida ajuda a controlar o estresse.

De acordo com alguns estudos, exercício funciona tão bem quanto medicação para reduzir sintomas de ansiedade e depressão e os efeitos podem ser de longa duração. O recomendado por especialista é atividade física vigorosa de 30 minutos de 3 a 5 vezes por semana.

Evitar café também é outra dica. O cafézinho que te mantém acordado, em excesso pode aumentar o estresse. Substitua por chá verde, que é rico em antioxidantes.

Durma 7 a 8 horas por noite. Falta de sono e estresse andam de mãos dadas, se você está estressado, não dorme bem e vice-versa.

Evitar mídias sociais

“Um traço muito brasileiro, que é diferente de outros países, o Brasil tem uma tradição cultural de aversão ao conflito explícito. Tudo é levado para o pessoal. Não somos educados para admitir e cultivar o conflito, o contraditório, a discussão. Nenhum amigo, em público, discorda de um amigo. Isso mesmo no mundo acadêmico, o que é lamentável”

Essa falta de diálogo torna as mídias sociais um campo minado para a saúde mental, criando ansiedades e depressões.

 

A quantidade de informações falsas que estão circulando através de mídias sociais é gigantesca. Tente sempre acreditar apenas em veículos de comunicação já consolidados, como Folha, G1, Estadão, El País, etc.

Social Network

Fora isso, seus amigos provavelmente estão filosofando sobre o assunto de todo lado, é muito textão que acaba só fortalecendo a sua bolha de opiniões ou o deixando mais nervoso quanto a opiniões contrárias.

Tente relevar opiniões contrárias às suas e não deixar ecoar as que você concorda.

Se não der certo esse autocontrole, você pode desativar temporariamente sua conta do Facebook. Outra dica é sair de grupos do WhatsApp educadamente ou simplesmente ignorá-los.

Ficar um pouco alienado

Se nada disso funcionou, um ponto polêmico é ficar alienado. Ou seja, deixar de ler jornais, acompanhar notícias e ignorar grupos de WhatsApp (Sim, é possível sair educadamente de grupos do WhatsApp), além de mídias sociais. Claro que dentro do possível, porque é quase impossível ficar completamente alienado hoje em dia.

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Essa estratégia é a mais difícil de cumprir dadas as circunstâncias, é basicamente “fugir para as cavernas”. Será preciso educadamente sair do assunto em rodas de amigos, pedir para que a pauta do almoço na firma seja outra e sempre que política surgir, se retirar.

Foque no trabalho, jogue video-game, fale de amenidades com amigos, leia livros, gaste seu tempo de outra forma.

Tome cuidado para que isso não se torne um isolamento seletivo. Se afastar do assunto política não pode ser se afastar de amigos e colegas de trabalho.

Procurar um profissional

Para quem tem dificuldade de lidar com tudo isso sozinho, a terapia é a ferramenta mais indicada. O importante neste caso é encontrar um profissional e um método com os quais você se identifique e estar realmente disposto a se abrir e a mudar.

Fontes

 

 

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Dia de folga

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Hike Forest.pngTudo começou ontem, uma segunda-feira intensa em uma semana que tinha tudo para dar certo. Acordei às 06:30, fiz um café da manhã com nada industrializado (uma raridade), fui correr e estava no trabalho pronto para o batente antes das 10.

Foi um dia cheio de desafios. Mas quais não são? Afinal eu não funcionaria se fosse diferente… Às 19 eu tinha um workshop, um misto de coaching com aula de teatro. De improviso a dinâmicas de grupos durante três horas, cheguei em casa lá pelas 23:30 pronto para capotar e já pensando que no dia seguinte acordaria tarde.

No dia seguinte, como todos os dias, o alarme toca às 06:30 para tomar um remédio e depois disso volta a tocar a cada 30 minutos.

Acordei tão atordoado que tomei o remédio errado, ufa que era somente lítio, o estabilizador de humor. Dois comprimidos não iam fazer mal para quem estava acostumado a tomar sete por dia e hoje toma só dois. A cada 30 minutos que passavam eu acordava e às pálpebras não queriam se descolar, adiava o alarme, mais 30 minutos e dessa vez eu podia sentir o hormônio do stress sendo produzido enquanto tentava, mais 30 minutos e meus pensamentos me dominavam “se sair da cama agora vou ficar mal humorado o dia todo“, “mais meia hora vai resolver“…

Eu nunca tive facilidade para acordar, de fato é um processo tão difícil que eu acordo todos os dias como se estivesse emergindo de um pesadelo fulminante, com direito a pulo da cama e tudo.

Mas esse dia foi especialmente difícil… Já eram 10:30 (meu horário final para sair da cama e não me complicar no trabalho) e eu não estava preparado. Minha cabeça era um turbilhão de pensamentos negativos que não conseguia controlar. Estava paralisado na minha própria cama.

Decidi inventar que estava doente para não ir trabalhar.

Férias forçadas

Quando um atleta está machucado, ele tira uma licença para se recuperar. Por que não fazemos o mesmo com o cérebro?

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Existe um movimento recente em blogs, pesquisas e periódicos para respeitar sua mente como respeitamos o corpo. Nosso corpo é fascinante por ter um mecanismo de defesa que é a dor. Se algo está doendo, é porque precisa repousar e de atenção, se a dor não existisse, você quebraria o braço e nunca perceberia.

Só que nosso cérebro não dói. Quando ele precisa de atenção se manifesta das mais diferentes maneiras, praticamente todas subjetivas. Está agressivo? Desde muito café até uma decepção amorosa. Depressivo? Podem ser complexos traumas infantis até morte de um ente querido. Vingativo? Falta de reconhecimento, baixa auto-estima, etc. Cada um responde de maneiras diferentes a situações diferentes e em alguns casos descobrir a raiz da questão pode demorar anos de terapia intensiva. Sem falar quando não é apenas um traço de personalidade.Desert Road.png

Me custaram anos de terapia para descobrir como eu reajo a algumas situações e como me blindar delas. Desconto a maioria de minhas frustrações em comida e álcool, me isolo dos amigos e família quando estou mal e tendo a sempre ter uma visão distorcida do mundo onde eu entrego menos do que o necessário (quando na real é sempre mais). O problema disso tudo é que esses são apenas os sintomas, o motivo real para ter ficado nessa situação podem ser vários.

O mais provável é o transtorno bipolar.

O pior é que é assim que costuma acontecer. Ser bipolar é acordar de repente com um humor completamente diferente que te acompanha por semanas. Dá até um medo de acordar no dia seguinte. Claro que isso também acontece com os dias bons, mas quem lembra deles?

Só que hoje era um dia dos ruins. Acordar assim me deixa mal por si só. Saber que o que me espera pela frente são alguns dias miseráveis e depressivos, mesmo tentando sair desse buraco sou afundado mais ainda. Não adianta meditar, boa alimentação, ficar sem álcool, aumentar dose dos remédios, quase tudo é inútil nessa situação. A parte legal é que muitos anos de terapia me ensinaram que é apenas uma fase passageiras e a miséria tem fim, isso me ajuda a não desistir até nos momentos mais sórdidos.

Quando finalmente consegui sair da cama, fui direto para a cozinha procurar alguma coisa para comer, tinha que ser doce, tinha que ser saborosa, como se procurasse por algo que preenchesse o vazio dentro de mim. Voltei com um pacote de biscoitos amanteigados e leite achocolatado para o quarto. Tomei o leite e fiquei imediatamente sem vontade de comer, o motivo? A embalagem parecia muito complicada de abrir. Decidi voltar para debaixo das cobertas.

Tenho um “mecanismo de defesa” muito curioso (pra não dizer chato). Quando estou mal, fico com um sono absurdo, como se meu corpo quisesse se fechar, dormir para sempre, como se os problemas não estivesse mais lá quando acordasse.

Era um dia frio de julho, voltei para a cama e fiquei embaixo das cobertas, já tinha decidido que seria meu dia de folga e estava tentando processar a ideia sem me sentir culpado enquanto cancelava as reuniões do dia.

Eu sabia que era importante que eu tirasse esse dia de folga forçado, não estava em condições nenhuma de socializar, passar o dia em reuniões e produzir algo.

Quase meio dia consigo me mover para o sofá e decido assistir desenho animado, algo que costuma me alegrar. Quando mal vi já estava indo ao McDonald’s pedir um Big Mac.

A partir da tarde a culpa já estava se dissipando e decidi jogar video-game, algo que sempre me alegra e já me tirou dos buracos mais fundos que passei quando estava cortando as drogas da minha vida.

Mountain.pngSó que enquanto estava procurando o mouse e colocando o computador na mesa perdi completamente o interesse. Será que estava ficando uma criança mimada? Só o fato de estar assim me deixava mais irritado ainda e não contribuía para a situação. Mas esse tipo de comportamento já aconteceu antes, então nada de se estranhar muito.

Enfim, decidi que nada melhor do que uma coisa que não exigisse muito do cérebro, algo que me deixasse feliz mesmo sem muito esforço e que desse uma perspectiva positiva do mundo. Nada se aplica tão bem a todos esses critérios como Bob Esponja. Episódios curtos de uma esponja que vive no fundo do mar e absolutamente nada o deixa para baixo.

O restante do dia foi um misto de tentar fazer algo produtivo (ler e-mails e escrever) e satisfazer necessidades fisiológicas a força (comer). Sinto que foi apenas mais um dia perdido no meio de vários que perco para o transtorno bipolar. No dia seguinte acordei melhor e com um pouco de esforço consegui trabalhar e voltar a viver normalmente.

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O medo de estar tudo bem

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Hoje eu dormi cinco horas e acordei bem. Mal abri o olho e já tinha respondido algumas mensagens no chat do trabalho. Sequer sai da cama e estava com o computador no colo respondendo alguns e-mails.

Ao chegar no trabalho, consegui terminar em uma hora um relatório que levaria provavelmente umas seis, não só o terminei como consegui preparar de uma maneira diferente que rendeu elogios do chefe ao final do dia.

Estava com problemas burocráticos em outro projeto para fazê-lo sair do papel. Passei no jurídico e financeiro e depois de uma conversa meio tensa onde precisei ser firme e bater de frente, consegui desempacar a situação.

E a cereja do bolo foi quando ocorria um evento interno para 300 pessoas e um participante critica abertamente um dos produtos que cuido para a liderança presente e ainda questiona se fariam algo. Eu – com a maior naturalidade do mundo – fui até a frente do palco, calmamente peguei o microfone do diretor e respondi na frente da empresa inteira os planos de lançamento.

Se você não me conhece, deixa te explicar: esse relatório e esse projeto estavam se arrastando por meses como se fossem um câncer em mim e eu tenho pavor de falar em público sem me preparar anteriormente.

Sim, era um dia bom. Sem falar na dieta que consegui seguir à risca.

Só que dias bons não costumam ser bom sinal.

De repente já eram 22h e eu me deparei quase no susto ainda no escritório trabalhando respondendo e-mails como uma máquina.

Foi quando comecei a me questionar. Isso não era normal. Em qualquer outro momento, estaria me flagelando de stress, pensando em comida, bebida, alguma válvula de escape.

Esse é um medo constante, o medo de ficar bem. Porque ficar tão bem assim só pode significar uma coisa: hipomania.

Hipomania é uma das fases de quem tem transtorno afeto bipolar. De maneira simplista dá pra se dizer que é o contrário da fase depressiva.

Será que estava começando a ficar hipomaníaco? Me passou isso pela cabeça e logo deixei essa ideia de lado. Fui fazer uma salada e assistir uma série. Mas estava inquieto e comia com uma mão, ficava no celular vendo o Instagram com outra e assistia a uma série. Quando menos percebi abandonei 2/3 da salada de lado e já sem fome fui procurar outra coisa para fazer.

Enquanto tomava banho, já depois da meia noite, voltei a pensar nas implicações de estar assim: será que estou? Será que não estou? Será que é apenas um dia bom? Essa inquietude de não poder confiar nos próprios sentimentos é algo que me persegue e sempre precisarei aprender a lidar, para o resto da minha vida. E sabe do pior? É isso que me torna quem sou.

Só espero que esse carrinho de montanha russa não caia tão cedo…