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Dia de folga

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Hike Forest.pngTudo começou ontem, uma segunda-feira intensa em uma semana que tinha tudo para dar certo. Acordei às 06:30, fiz um café da manhã com nada industrializado (uma raridade), fui correr e estava no trabalho pronto para o batente antes das 10.

Foi um dia cheio de desafios. Mas quais não são? Afinal eu não funcionaria se fosse diferente… Às 19 eu tinha um workshop, um misto de coaching com aula de teatro. De improviso a dinâmicas de grupos durante três horas, cheguei em casa lá pelas 23:30 pronto para capotar e já pensando que no dia seguinte acordaria tarde.

No dia seguinte, como todos os dias, o alarme toca às 06:30 para tomar um remédio e depois disso volta a tocar a cada 30 minutos.

Acordei tão atordoado que tomei o remédio errado, ufa que era somente lítio, o estabilizador de humor. Dois comprimidos não iam fazer mal para quem estava acostumado a tomar sete por dia e hoje toma só dois. A cada 30 minutos que passavam eu acordava e às pálpebras não queriam se descolar, adiava o alarme, mais 30 minutos e dessa vez eu podia sentir o hormônio do stress sendo produzido enquanto tentava, mais 30 minutos e meus pensamentos me dominavam “se sair da cama agora vou ficar mal humorado o dia todo“, “mais meia hora vai resolver“…

Eu nunca tive facilidade para acordar, de fato é um processo tão difícil que eu acordo todos os dias como se estivesse emergindo de um pesadelo fulminante, com direito a pulo da cama e tudo.

Mas esse dia foi especialmente difícil… Já eram 10:30 (meu horário final para sair da cama e não me complicar no trabalho) e eu não estava preparado. Minha cabeça era um turbilhão de pensamentos negativos que não conseguia controlar. Estava paralisado na minha própria cama.

Decidi inventar que estava doente para não ir trabalhar.

Férias forçadas

Quando um atleta está machucado, ele tira uma licença para se recuperar. Por que não fazemos o mesmo com o cérebro?

Oasis Boat Sundown.png

Existe um movimento recente em blogs, pesquisas e periódicos para respeitar sua mente como respeitamos o corpo. Nosso corpo é fascinante por ter um mecanismo de defesa que é a dor. Se algo está doendo, é porque precisa repousar e de atenção, se a dor não existisse, você quebraria o braço e nunca perceberia.

Só que nosso cérebro não dói. Quando ele precisa de atenção se manifesta das mais diferentes maneiras, praticamente todas subjetivas. Está agressivo? Desde muito café até uma decepção amorosa. Depressivo? Podem ser complexos traumas infantis até morte de um ente querido. Vingativo? Falta de reconhecimento, baixa auto-estima, etc. Cada um responde de maneiras diferentes a situações diferentes e em alguns casos descobrir a raiz da questão pode demorar anos de terapia intensiva. Sem falar quando não é apenas um traço de personalidade.Desert Road.png

Me custaram anos de terapia para descobrir como eu reajo a algumas situações e como me blindar delas. Desconto a maioria de minhas frustrações em comida e álcool, me isolo dos amigos e família quando estou mal e tendo a sempre ter uma visão distorcida do mundo onde eu entrego menos do que o necessário (quando na real é sempre mais). O problema disso tudo é que esses são apenas os sintomas, o motivo real para ter ficado nessa situação podem ser vários.

O mais provável é o transtorno bipolar.

O pior é que é assim que costuma acontecer. Ser bipolar é acordar de repente com um humor completamente diferente que te acompanha por semanas. Dá até um medo de acordar no dia seguinte. Claro que isso também acontece com os dias bons, mas quem lembra deles?

Só que hoje era um dia dos ruins. Acordar assim me deixa mal por si só. Saber que o que me espera pela frente são alguns dias miseráveis e depressivos, mesmo tentando sair desse buraco sou afundado mais ainda. Não adianta meditar, boa alimentação, ficar sem álcool, aumentar dose dos remédios, quase tudo é inútil nessa situação. A parte legal é que muitos anos de terapia me ensinaram que é apenas uma fase passageiras e a miséria tem fim, isso me ajuda a não desistir até nos momentos mais sórdidos.

Quando finalmente consegui sair da cama, fui direto para a cozinha procurar alguma coisa para comer, tinha que ser doce, tinha que ser saborosa, como se procurasse por algo que preenchesse o vazio dentro de mim. Voltei com um pacote de biscoitos amanteigados e leite achocolatado para o quarto. Tomei o leite e fiquei imediatamente sem vontade de comer, o motivo? A embalagem parecia muito complicada de abrir. Decidi voltar para debaixo das cobertas.

Tenho um “mecanismo de defesa” muito curioso (pra não dizer chato). Quando estou mal, fico com um sono absurdo, como se meu corpo quisesse se fechar, dormir para sempre, como se os problemas não estivesse mais lá quando acordasse.

Era um dia frio de julho, voltei para a cama e fiquei embaixo das cobertas, já tinha decidido que seria meu dia de folga e estava tentando processar a ideia sem me sentir culpado enquanto cancelava as reuniões do dia.

Eu sabia que era importante que eu tirasse esse dia de folga forçado, não estava em condições nenhuma de socializar, passar o dia em reuniões e produzir algo.

Quase meio dia consigo me mover para o sofá e decido assistir desenho animado, algo que costuma me alegrar. Quando mal vi já estava indo ao McDonald’s pedir um Big Mac.

A partir da tarde a culpa já estava se dissipando e decidi jogar video-game, algo que sempre me alegra e já me tirou dos buracos mais fundos que passei quando estava cortando as drogas da minha vida.

Mountain.pngSó que enquanto estava procurando o mouse e colocando o computador na mesa perdi completamente o interesse. Será que estava ficando uma criança mimada? Só o fato de estar assim me deixava mais irritado ainda e não contribuía para a situação. Mas esse tipo de comportamento já aconteceu antes, então nada de se estranhar muito.

Enfim, decidi que nada melhor do que uma coisa que não exigisse muito do cérebro, algo que me deixasse feliz mesmo sem muito esforço e que desse uma perspectiva positiva do mundo. Nada se aplica tão bem a todos esses critérios como Bob Esponja. Episódios curtos de uma esponja que vive no fundo do mar e absolutamente nada o deixa para baixo.

O restante do dia foi um misto de tentar fazer algo produtivo (ler e-mails e escrever) e satisfazer necessidades fisiológicas a força (comer). Sinto que foi apenas mais um dia perdido no meio de vários que perco para o transtorno bipolar. No dia seguinte acordei melhor e com um pouco de esforço consegui trabalhar e voltar a viver normalmente.

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Eu sei que preciso…

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Eu sei que preciso…

  • Fazer 6 balanceadas refeições por dia por dia para emagrecer.
  • Escovar os dentes após cada refeição.
  • Pedir menos delivery e cozinhar mais em casa.
  • Comprar comida saudável e diminuir o consumo de álcool.
  • Correr três vezes por semana para melhorar minha saúde mental e diminuir a carga de remédios.
  • Parar de achar que comida vai resolver minha ansiedades e frustrações diárias.
  • Parar de gastar com coisas frívolas e que não farão diferença na minha vida. Ou gastar sem pensar.
  • Sair do trabalho cedo, caso contrário não consigo descansar o suficiente.
  • Ir ao psiquiatra uma vez por mês.
  • Ir a terapia duas vezes por semana.
  • Tomar meus remédios todos os dias religiosamente no mesmo horário.
  • Fazer exames de sangue a cada três meses e check up completo todo ano.
  • Escrever e meditar todos os dias.
  • Terminar pelo menos um dos livros que comprei ainda esse ano.
  • Não ouvir músicas tristes quando estiver triste.
  • Assistir menos seriado para ter tempo de focar nos outros itens desta lista.
  • Não perder tanto tempo no Facebook.
  • Não fazer só o que as pessoas esperam de mim e respeitar minhas próprias vontades.
  • Pagar as contas antes da data de vencimento.
  • Dormir menos que nove horas por dia.
  • Parar de tomar pílulas de cafeína só para conseguir sair da cama.
  • Entregar aquele relatório que prometi semana passada para o chefe.
  • Ir às festas de aniversário e confraternizações que meus amigos me convidam.
  • Parar de fumar maconha toda semana.
  • Parar de beber todos os dias.
  • Ficar mal toda vez que me olho no espelho.
  • Parar de inventar desculpas aleatórias para não ver meus amigos.
  • Parar de inventar desculpas aleatórias para não ir trabalhar.
  • Parar de ignorar meus ex-colegas de trabalho.
  • Não abandonar ou perder interesse em projetos.
  • Responder os comentários do meu blog, as mensagens do Facebook, do Whatsapp…
  • Falar com meus pais e minha irmã de vez em quando.

Eu sei que preciso fazer tudo isso para ter uma vida plena e saudável. Eu também sei que isso não é só baboseira e coisa que os médicos ficam repetindo, mas que acredito.

Mas por que não faço?
Não sei.

Sinto que algo dentro de mim não me deixa fazer as coisas da maneira certa, mesmo se tento o máximo possível. Também já me questionei se essa é realmente a maneira certa, se só não quero fazer. A resposta foi sim, isso é o melhor para mim e tenho noção disso. É confortável ir para o lado ruim e autodestrutivo, é comum e sei fazer tão bem que sequer percebo.

Às vezes gostaria de não saber todas as coisas que eu preciso fazer, porque cada vez que não as faço, eu alimento um monstro. Cada dia é cheio de pequenas derrotas de coisas que não consegui fazer e me devoram um pouco de minha essência, como um câncer só esperando o momento certo de me consumir vivo.

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Como é tomar Lítio

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2018-02-07-2.pngCarbonato de Lítio, carinhosamente apelidado de Lítio (vendido comumente como Carbolitium) é um dos mais antigos e consolidados remédios para transtorno bipolar.

Apesar de sua eficácia, o lítio precisa manter um nível seguro no sangue devido a sua toxicidade, existem exames de sangue que ajudam a controlar esses níveis e quem está em tratamento deve ficar de olho. Muito lítio no sangue e você acaba intoxicado, muito pouco e o efeito nocivo não é sentido.

Alguns efeitos colaterais comuns (segundo a bula): 

  • Aumento na vontade de urinar.
  • Confusão mental e perda de memória.
  • Constipação.
  • Boca seca e/ou sede.
  • Tremores (em especial nas mãos).
  • Dores de cabeça.
  • Náusea.

Minha experiência: Já uso o lítio há quatro anos e é o único remédio até hoje que conseguiu me segurar das crises mais brabas que já passei, em especial as depressivas. Só que o medicamento é sacana e te acaba de outras maneiras com os efeitos colaterais.

Eu sempre sofri com muitos enjoos, tremores, idas frequentes ao banheiro durante o dia e boca seca. Com o tempo desenvolvi hipotireoidismo e precisei tratar em separado, também como uma queda cognitiva muito clara. O lítio também me deu um aumento de peso considerável.

Importante: este post traz minha experiência ao tomar o remédio, por favor não o considere conselho médico e trate de dúvidas com seu psiquiatra.

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Enjoos

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Quando era adolescente, odiava tomar remédios, nunca conseguia engolir inteiro o que parecia sempre ter o tamanho de uma bala grande. O gosto dos remédios também não costumava ajudar. Como resultado sempre tinha aquele reflexo de ânsia de vômito (gag reflex, para os íntimos)

Também tive um histórico de bulimia no começo da vida adulta. Se comesse demais e a culpa batesse, era só colocar para fora. Para piorar, tinha muitos amigos que também faziam coisas similares.

Cresci e a necessidade de ser adulto bateu na porta. Ou aprendia a engolir os sete comprimidos diários ou não deixava de ficar triste.

Com a ajuda para resolver a vida, contamos com os milagres da medicina e todos esses remédios já criados até hoje. Só que com eles, também vêm os queridinhos dos efeitos colaterais. E adivinha um dos efeitos colaterais mais comuns em medicamentos psiquiátricos? Enjoos.

Enjoos são algo tão presentes na minha vida, que quando uso drogas ou fico muito ansioso, preciso me esforçar para não vomitar.

Acho que no fundo, meu organismo gosta de se manter “puro” e quer jogar para fora qualquer coisa que altere meu estado de ser, seja para o bem ou para o mal.

Ultimamente os enjoos da minha vida vem piorando. Fumar um cigarro? Enjoo. Comer um pouco demais? Vontade de colocar tudo para fora. Passar em frente a um restaurante japonês só trancando o nariz. Aquele comprimido grande que tomo à noite? Preciso meditar muito num céu azul antes de colocá-lo na boca. Depois de meu coquetel diário noturno costumo ficar uma meia hora respirando fundo tentando controlar os enjoos. Afinal jogar todos esses medicamentos descarga abaixo é economicamente inviável. Até coloquei mais um remédio no coquetel, um contra enjoos, mas sem muito sucesso.

Mas somos humanos e nos adaptamos as mais variadas situações com uma certa facilidade, não é mesmo?

comida-saudavel

Comecei a pensar que poderia usar esse drama todo a meu favor. Se estou constantemente enjoado por que não aproveito e faço refeições menores? Comecei a perceber que nem sempre eu comia o quanto comia com fome, era mais uma questão de hábito (por exemplo se meu time inteiro fosse almoçar meio dia em ponto, os acompanhava mesmo sem fome) ou para descontar frustrações do dia a dia.

Até aí nenhuma novidade, mas respeitar os enjoos se provou uma tarefa um tanto quanto interessante. Comecei a comer mais salada, fazer refeições sem o peso quase ritualístico que nada anteriormente. Em outras palavras, voltei a comer por necessidade apenas.

Ainda sinto certo desconforto após algumas refeições quando erro a dose ou em eventos sociais onde tem comida e álcool. Vez ou outra coloco tudo para fora. O que está tudo bem exceto quando acontece logo depois de tomar todos os remédios à noite, uma porque não vou tomar eles novamente e outra porque foi dinheiro ralo abaixo.

Hemorragia

Recentemente fui a um festival de música eletrônica e como poucas vezes no ano, decidi exagerar nas drogas. Mais específicamente no loló (lança perfume), ecstasy e LSD, tudo junto e misturado. Em seis amigos, usamos o equivalente a 6 litros de lança perfume em dois dias. Foi tanto, mas tanto, que todo mundo passou mal depois do festival.

Caso você não saiba os efeitos colaterais de muito lança perfume, um dos principais são os enjoos. Eu fiquei desesperado com a ideia de vomitar mais ainda depois de ver todos os meus amigos vomitando sem parar nos dias que seguiram o festival que tomei muito Plasil (remédio para enjoo).

Até aí tudo bem, fui viajar a trabalho logo depois do festival e no voo de ida, acordei com o olho vermelho, coisa que nunca tive na vida. Fiquei levemente desesperado, meu olho grudava ao piscar e colírio nenhum deixava ele melhor.

olho-cornea

Quando cheguei ao meu destino final, fui direto ao médico, que falou que eu tinha uma infecção bactericida (vulgo conjuntivite). Mandou passar uma colírio de 4 em 4 horas e uma pomada dentro do olho, coisa mais agoniante do mundo.

A vida seguiu, fui a reuniões, saí para comer com o pessoal do trabalho, correr no parque, etc. No terceiro dia, os remédios para enjoo não aguentavam mais, não somente enjoos, mas vômito acompanhado de sangue. Toda vez que vomitava, meu olho queria explodir e parecia que ficava mais vermelho, a um ponto onde eu mal conseguia identificar a cor, parecia tudo preto.

Continuei passando o colírio como a médica tinha pedido para fazer e uma semana depois, volto para casa, ainda com o olho bem vermelho e vou ao meu médico. Ele me diagnostica corretamente como uma hemorragia (isso explica porque os colírios não funcionaram) e que isso muito provavelmente poderia ter sido causado por impacto, vômito ou problemas de pressão no olho. Descartamos rapidamente as opções e ficou claro que os enjoos – tanto do lança perfume quanto do restante da vida – tinham causado isso.

E como quase qualquer coisa na minha vida, tudo tem que ser intenso, não basta ter apenas alguns enjoos, tem que vomitar a ponto de ter uma hemorragia.

Hoje sigo tentando conviver com os meus enjoos, o que percebo é que na maioria das vezes, eu quero fugir de uma situação e acabo passando mal. Como se meu organismo dissesse “não consigo lidar com essa situação, vou botar para fora”.

 

 

 

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Por um ano novo com mais sobriedade

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É final do ano, onde você vê aquele tio da família que você ama odiar, os amigos que inventam amigo secreto, a festa da firma, os eventos sociais, mais festas, a piscina no alto verão…

Quando eu usava drogas, essa era a melhor época do ano. Posso dizer com confiança que não ficava sóbrio durante o mês de dezembro. Começava a beber uma garrafa de vinho sozinho na quinta, cheirava com os amigos na sexta, saia para uma balada e usava balas no sábado e domingo me afundava na maconha. Um ritmo que meus médicos chamavam de “não sei como você não morreu”.

Mas depois do diagnóstico a seriedade bateu na porta e o conhecimento de que alguma merda grande poderia acontecer também, sabia que se continuasse nesse ritmo iria morrer mesmo, não seria só um puxão de orelha dos meus médicos.

E então fui diminuindo, parei de usar todas as drogas possíveis e por uma período (de 6 meses) até álcool parei completamente.

Isso já fazem três anos sem drogas, só voltei para o álcool e maconha com moderação. Eu adoro ir a festivais de música eletrônica e aguentá-los sem nada foi um grande desafio que consegui superar. Ir a baladas sem ficar cheirando, after parties sem MDMA e por ai vai…

Eu desenvolvi mecanismos para aguentar essas situações, depois de muita terapia percebi que na verdade, só estava usando drogas para aguentar alguma coisa. Fosse o cansaço quase sobre humano de ficar 12 horas em pé pulando, fosse a música que não estava boa em determinado DJ ou as aquela balada no centro que claramente você pegaria tétano se escorregasse nas paredes.

Depois que percebi isso, comecei a evitar lugares que sabia que não seriam legais, onde os DJs não seriam interessante ou não pudesse fugir caso quisesse ir embora. Isso incluiu deixar muitos amigos de balada para trás, mudar hábitos de programas e por ai vai.

A força para não usar nada vem do fato que eu posso desencadear uma crise de hipomania, depressão ou algo similar, estragar meu sistema imunológico e todo o dinheiro jogado fora com tratamento. Do que adianta gastar R$ 1.500 reais por mês de remédios, mais R$ 2.500 de estimulação transcraniana se você vai jogar tudo fora com um comprimido de ecstasy?

Desde então, finais de ano viraram uma data que eu precisava me controlar absurdamente para não fugir da linha, o que significava deixar de ir a festas, deixar de comparecer a happy hours e deixar os amigos achando que eu os estava ignorando. O que acabava sendo mais doloroso que o normal, já que além de deixar de lado as drogas –  o que nunca é tarefa fácil para quem tem histórico de abuso – eu não poderia me distrair com amigos facilmente.

Me restava jogar video-game sozinho, onde os amigos eram virtuais e provavelmente tinham 16 anos.

Ser infeliz nunca é justificável, mas essa época da minha vida sempre foi certeza de que as coisas seriam ruins, que eu estaria introspectivo e que me sentiria deslocado.

E todas as minhas tentativas de tentar me abrir sobre esse problema com alguém foram em vão, uns pensam que estou sendo dramático, outros que é só “ter mais força de vontade” enquanto outros não entendem como ficar sem beber e se drogar nessa época do ano pode ser tão difícil.

Fico incompreendido.

Esse ano

Esse ano, depois de três anos sendo certinho e não abusando de drogas e álcool em dezembro, decidi que poderia me dar uma folga. Afinal 2017 foi um ano muito complicado que precisava de um bota fora.

Embora estivesse tomando Revia – remédio para parar de beber que tira a vontade por álcool – eu comecei o mês indo a jantares e happy hours indiscriminadamente. Bebi tanto que ganhei 5kg quase mantendo a mesma dieta, só adicionando álcool.

Além disso, fiz uma coisa que não fazia há muito tempo, comprar maconha. A minha política desde que parei com drogas foi “não comprar, apenas usar dos amigos”. Abri uma exceção e quando menos vi estava bolando em casa e jogando video-game chapado regado a vinho branco.

Como amo jogar video-game, aproveitei o período “de férias” para ir a casa de um dos meus melhores amigos – que recentemente ficou desempregado e também estava nessa mesma sintonia – ficar chapado todo final de semana. Fumávamos e mergulhávamos no mundo virtual de Diablo para esquecermos de nossas vidas.

No natal, convidei o meu talvez-futuro-namorado para passar comigo o feriadão e montamos praticamente uma lan house para ficar jogando video-game, regada a muito vinho e maconha. Tanta maconha, inclusive, que em alguns momentos tivemos que parar porque nossos cérebros não conseguiam mais processar comandos complexos de um joystiq. Foi tão pesado que depois ele foi parar no hospital.

Chega o reveillon e com ele a viagem ao sul para acompanhar a temporada de festas na praia.

No primeiro dia, na primeira festa, tomei o LSD mais forte da minha vida. Eu tenho uma certa dificuldade de sentir o efeito (principalmente alucinógeno) do LSD, ainda mais agora tomando antipsicóticos (que costumam cortar esse efeito). Mas a experiência foi tão forte que tive que sentar em algum momento porque não me aguentava em pé com aquela corrente de serotonina pelo corpo.

Eu não cheguei a ter alucinações, mas lembro que estava tão louco, mas tão louco, que em alguns momentos eu fumava cigarro com a esperança de que essa loucura passasse (sem muito efeito), estava tão desacostumado a ficar louco que não sabia lidar com tudo aquilo. Eu comprei um colar e achei que era de couro, quando de fato era de madeira. Eu achei que brita era grama. Uma estranha veio falar comigo e eu não entendi nada do que ela falasse, como se fosse tudo em outra língua  e por aí vai. Quando passou, fiquei num misto de alívio e tristeza., mas não pensei muito e já tomei meio comprimido de ecstasy e continuei a noite bebendo.

No dia seguinte, não satisfeito, tomei meio comprimido de ecstasy e a mesma dose de LSD do dia anterior, que claro, não bateu. LSD cria uma resistência muito rápida no organismo.

A essa altura das coisas, já passado o ano novo, estou com muita azia, engordei quase 7kg, demorei horas para conseguir escrever esse texto e estou pronto para o próximo ano.

Que 2018 seja cheio de sobriedade e bom senso.