Post

Quartas-feiras

2 Comentários

Hoje já é quarta – e como eu gosto de ver o copo meio cheio – podemos concluir que é quase quinta, que é pré-sexta, que é quase final de semana.

Lembra daquela dieta que você prometeu começar junto com a academia? É sempre na quarta-feira que cai a culpa de não ter começado coisa nenhuma.

Para uns, o dia do sagrado futebol, para outros a maratona de séries e para os fortes, o happy hour da firma.

Dias desses li alguém resmungando “minha vida é uma eterna quarta-feira”. Por um momento senti dó e pensei em lembra-lo que segundas-feiras existem. Mas logo me ocorreu que ninguém pode bater a quarta-feira, você usou todas as suas forças para sobreviver dois dias e tem mais dois pela frente?

O pior tipo de tortura que pode-se desejar a um inimigo? Que ele acorde todas as quartas-feiras às 6 da manhã pensando que é sexta. Pior que isso só se fosse quarta-feira de cinzas, o dia nacional da ressaca. Tem dia da semana mais renegado que o dia culpado por acabar o carnaval todo ano?

Por outro lado, a quarta é apenas outro dia da semana, o mais ordinário, o mais “de boa”. Sem pressão de ser o primeiro, nem com as obrigações de ser o dia onde todos precisam se divertir (sábado, estou pensando você)

É o tapinha nas costas que o universo te deu. Se a semana foi ruim, tem mais dois dias para consertar.

E vamo que vamo.

Post

Endorfinas pra que te quero

1 comment

Um dia normal na minha vida é um poço de negatividade, ódio ao mundo e vontade de morrer. Por mais que eu saiba dessa condição e anos de terapia, visitas ao psiquiatra, sessões com outros psicólogos e até a adoecer porque tomava remédio demais me ensinaram é que exercício físico é a solução para quase todos os meus problemas.

Running Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.png

Exercícios para uma saúde melhor

Aí você deve estar somando uma coisa a outra e pensando que obviamente eu devo mergulhar em todos os esportes e morar na academia.

Muito fácil na teoria.

Agora na prática, eu não consigo acordar cedo o suficiente para correr, quando não estou trabalhando até tarde, acabo tomando muito tempo me preparando para coisas banais, como colocar roupa de academia, sincronizando músicas para ouvir na academia ou até mesmo procurando a toalha perfeita.

Também não sei dosar muito bem os limites. Ora estou machucado porque corri demais, ora não me alimentei direito e fiquei sem energia a ponto de ter uma queda glicêmica e quase desmaiar. Tudo é absorvido pelo meu cérebro como “eu sou um derrotado” e fica só esperando o dia para jogar a verdade na minha cara.

Poderia ser simples não é? Como seres humanos fomos programados para fazer exercício físico há centenas de anos, por que tanta dificuldade?

Acabei de correr 5.62km. O que segue é um monólogo interno nesses 44 minutos.

-Hmmm, que ideia foi essa de correr domingo fazendo 13 graus?
-Bom, já estou fora de casa e coloquei casaco, então vamos lá.
-Por que eu decidi ir até o Ibiraquera? São 2km só pra chegar, depois precisarei voltar mais 2km. Poderia ter ido na esteira.
-Aff esse GPS não liga nunca.
-Nossa, que calor, e eu nem cheguei no parque, esse casaco vai me irritar.
-Por que eu vim correr mesmo? Ah verdade, estou estressado.
-Shhh, ouve a música.

Corra dos seus problemas

-Ufa, cheguei. Que maravilha, o parque está vazio, melhor escolha ter vindo correr.
-Nossa, já 1km?
-Estranho, já estou ofegante.
-Ah, verdade, nariz entupiu nesse frio.
-Dorzinha embaixo da costela, respira direito!

2km

Running Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.png

-Cabelo maldito, tá chicoteando minha cara, preciso lembrar de cortar.
-Ouch, no olho não.
-Aquele gatinho me encarou por 3s, será que era flerte ou só estava com pena da minha cara de sofrimento?
-Saudade de correr no parque da Aclimação, era cheio de gatos abandonados por velhinhas coreanas.
-Queria um gato de estimação.
-Awn que fofo, o casal aprendendo a andar de skate juntos!

3km

Running Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.png
-Um passo atrás do outro, flexiona esse joelho, respira!
-Já estou pingando, preciso tirar esse casaco.
-Nossa, eu subestimei a dificuldade de tirar um casaco e amarrar na cintura correndo. Quase que o fone de ouvido foi pro chão.

4km

Running Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.png

-175bpm, fodeu.
-Nota mental: malhar mais o músculo que segura o joelho.
-Malhar, né? Qualquer músculo é lucro a essa altura.
-Respira fundo, desacelera, calma. Pensa nas endorfinas.
-Quando foi que escureceu?
-Louie, por que você colocou uma música calma na sua playlist de corrida?
-Tem algum ditado com limões que não lembro. A lição é aproveitar a música pra desacelerar.
-Ahhhh, endorfinas.
–  🎶 🎵 🎼 🎶 🔊
-Amo essa canção <corre no ritmo da batida>.
-Se recomponha homem, está pisando mais forte de um lado que outro por causa dessa música.

5km

Running Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.pngRunning Health Weight Work Fit Fitness 3ed23a45ba0846ee.png
-Esse mulher já cruzou comigo duas vezes, não sei por que mas senti uma conexão. Que velocidade será que ele está mantendo? Será que ela também gosta de comer tangerina depois do treino?
-Olha que brega, um monociclo elétrico. Não bastasse isso, ele está com o cachorro no colo.
-Quase fui atropelado por um ciclista amador, mas as endorfinas não me deixaram ficar puto.
-Ok, melhor parar antes que me machuque.
-Nossa eu já cheguei em casa? Nem percebi o caminho de volta.
-O porteiro está falando comigo e eu estou ouvindo música. E agora?!
-Só sorri, concorda com a cabeça e vai em frente, Louie.

 

 

Post

Dia de folga

2 Comentários

Hike Forest.pngTudo começou ontem, uma segunda-feira intensa em uma semana que tinha tudo para dar certo. Acordei às 06:30, fiz um café da manhã com nada industrializado (uma raridade), fui correr e estava no trabalho pronto para o batente antes das 10.

Foi um dia cheio de desafios. Mas quais não são? Afinal eu não funcionaria se fosse diferente… Às 19 eu tinha um workshop, um misto de coaching com aula de teatro. De improviso a dinâmicas de grupos durante três horas, cheguei em casa lá pelas 23:30 pronto para capotar e já pensando que no dia seguinte acordaria tarde.

No dia seguinte, como todos os dias, o alarme toca às 06:30 para tomar um remédio e depois disso volta a tocar a cada 30 minutos.

Acordei tão atordoado que tomei o remédio errado, ufa que era somente lítio, o estabilizador de humor. Dois comprimidos não iam fazer mal para quem estava acostumado a tomar sete por dia e hoje toma só dois. A cada 30 minutos que passavam eu acordava e às pálpebras não queriam se descolar, adiava o alarme, mais 30 minutos e dessa vez eu podia sentir o hormônio do stress sendo produzido enquanto tentava, mais 30 minutos e meus pensamentos me dominavam “se sair da cama agora vou ficar mal humorado o dia todo“, “mais meia hora vai resolver“…

Eu nunca tive facilidade para acordar, de fato é um processo tão difícil que eu acordo todos os dias como se estivesse emergindo de um pesadelo fulminante, com direito a pulo da cama e tudo.

Mas esse dia foi especialmente difícil… Já eram 10:30 (meu horário final para sair da cama e não me complicar no trabalho) e eu não estava preparado. Minha cabeça era um turbilhão de pensamentos negativos que não conseguia controlar. Estava paralisado na minha própria cama.

Decidi inventar que estava doente para não ir trabalhar.

Férias forçadas

Quando um atleta está machucado, ele tira uma licença para se recuperar. Por que não fazemos o mesmo com o cérebro?

Oasis Boat Sundown.png

Existe um movimento recente em blogs, pesquisas e periódicos para respeitar sua mente como respeitamos o corpo. Nosso corpo é fascinante por ter um mecanismo de defesa que é a dor. Se algo está doendo, é porque precisa repousar e de atenção, se a dor não existisse, você quebraria o braço e nunca perceberia.

Só que nosso cérebro não dói. Quando ele precisa de atenção se manifesta das mais diferentes maneiras, praticamente todas subjetivas. Está agressivo? Desde muito café até uma decepção amorosa. Depressivo? Podem ser complexos traumas infantis até morte de um ente querido. Vingativo? Falta de reconhecimento, baixa auto-estima, etc. Cada um responde de maneiras diferentes a situações diferentes e em alguns casos descobrir a raiz da questão pode demorar anos de terapia intensiva. Sem falar quando não é apenas um traço de personalidade.Desert Road.png

Me custaram anos de terapia para descobrir como eu reajo a algumas situações e como me blindar delas. Desconto a maioria de minhas frustrações em comida e álcool, me isolo dos amigos e família quando estou mal e tendo a sempre ter uma visão distorcida do mundo onde eu entrego menos do que o necessário (quando na real é sempre mais). O problema disso tudo é que esses são apenas os sintomas, o motivo real para ter ficado nessa situação podem ser vários.

O mais provável é o transtorno bipolar.

O pior é que é assim que costuma acontecer. Ser bipolar é acordar de repente com um humor completamente diferente que te acompanha por semanas. Dá até um medo de acordar no dia seguinte. Claro que isso também acontece com os dias bons, mas quem lembra deles?

Só que hoje era um dia dos ruins. Acordar assim me deixa mal por si só. Saber que o que me espera pela frente são alguns dias miseráveis e depressivos, mesmo tentando sair desse buraco sou afundado mais ainda. Não adianta meditar, boa alimentação, ficar sem álcool, aumentar dose dos remédios, quase tudo é inútil nessa situação. A parte legal é que muitos anos de terapia me ensinaram que é apenas uma fase passageiras e a miséria tem fim, isso me ajuda a não desistir até nos momentos mais sórdidos.

Quando finalmente consegui sair da cama, fui direto para a cozinha procurar alguma coisa para comer, tinha que ser doce, tinha que ser saborosa, como se procurasse por algo que preenchesse o vazio dentro de mim. Voltei com um pacote de biscoitos amanteigados e leite achocolatado para o quarto. Tomei o leite e fiquei imediatamente sem vontade de comer, o motivo? A embalagem parecia muito complicada de abrir. Decidi voltar para debaixo das cobertas.

Tenho um “mecanismo de defesa” muito curioso (pra não dizer chato). Quando estou mal, fico com um sono absurdo, como se meu corpo quisesse se fechar, dormir para sempre, como se os problemas não estivesse mais lá quando acordasse.

Era um dia frio de julho, voltei para a cama e fiquei embaixo das cobertas, já tinha decidido que seria meu dia de folga e estava tentando processar a ideia sem me sentir culpado enquanto cancelava as reuniões do dia.

Eu sabia que era importante que eu tirasse esse dia de folga forçado, não estava em condições nenhuma de socializar, passar o dia em reuniões e produzir algo.

Quase meio dia consigo me mover para o sofá e decido assistir desenho animado, algo que costuma me alegrar. Quando mal vi já estava indo ao McDonald’s pedir um Big Mac.

A partir da tarde a culpa já estava se dissipando e decidi jogar video-game, algo que sempre me alegra e já me tirou dos buracos mais fundos que passei quando estava cortando as drogas da minha vida.

Mountain.pngSó que enquanto estava procurando o mouse e colocando o computador na mesa perdi completamente o interesse. Será que estava ficando uma criança mimada? Só o fato de estar assim me deixava mais irritado ainda e não contribuía para a situação. Mas esse tipo de comportamento já aconteceu antes, então nada de se estranhar muito.

Enfim, decidi que nada melhor do que uma coisa que não exigisse muito do cérebro, algo que me deixasse feliz mesmo sem muito esforço e que desse uma perspectiva positiva do mundo. Nada se aplica tão bem a todos esses critérios como Bob Esponja. Episódios curtos de uma esponja que vive no fundo do mar e absolutamente nada o deixa para baixo.

O restante do dia foi um misto de tentar fazer algo produtivo (ler e-mails e escrever) e satisfazer necessidades fisiológicas a força (comer). Sinto que foi apenas mais um dia perdido no meio de vários que perco para o transtorno bipolar. No dia seguinte acordei melhor e com um pouco de esforço consegui trabalhar e voltar a viver normalmente.

Post

Eu sei que preciso…

2 Comentários

Eu sei que preciso…

  • Fazer 6 balanceadas refeições por dia por dia para emagrecer.
  • Escovar os dentes após cada refeição.
  • Pedir menos delivery e cozinhar mais em casa.
  • Comprar comida saudável e diminuir o consumo de álcool.
  • Correr três vezes por semana para melhorar minha saúde mental e diminuir a carga de remédios.
  • Parar de achar que comida vai resolver minha ansiedades e frustrações diárias.
  • Parar de gastar com coisas frívolas e que não farão diferença na minha vida. Ou gastar sem pensar.
  • Sair do trabalho cedo, caso contrário não consigo descansar o suficiente.
  • Ir ao psiquiatra uma vez por mês.
  • Ir a terapia duas vezes por semana.
  • Tomar meus remédios todos os dias religiosamente no mesmo horário.
  • Fazer exames de sangue a cada três meses e check up completo todo ano.
  • Escrever e meditar todos os dias.
  • Terminar pelo menos um dos livros que comprei ainda esse ano.
  • Não ouvir músicas tristes quando estiver triste.
  • Assistir menos seriado para ter tempo de focar nos outros itens desta lista.
  • Não perder tanto tempo no Facebook.
  • Não fazer só o que as pessoas esperam de mim e respeitar minhas próprias vontades.
  • Pagar as contas antes da data de vencimento.
  • Dormir menos que nove horas por dia.
  • Parar de tomar pílulas de cafeína só para conseguir sair da cama.
  • Entregar aquele relatório que prometi semana passada para o chefe.
  • Ir às festas de aniversário e confraternizações que meus amigos me convidam.
  • Parar de fumar maconha toda semana.
  • Parar de beber todos os dias.
  • Ficar mal toda vez que me olho no espelho.
  • Parar de inventar desculpas aleatórias para não ver meus amigos.
  • Parar de inventar desculpas aleatórias para não ir trabalhar.
  • Parar de ignorar meus ex-colegas de trabalho.
  • Não abandonar ou perder interesse em projetos.
  • Responder os comentários do meu blog, as mensagens do Facebook, do Whatsapp…
  • Falar com meus pais e minha irmã de vez em quando.

Eu sei que preciso fazer tudo isso para ter uma vida plena e saudável. Eu também sei que isso não é só baboseira e coisa que os médicos ficam repetindo, mas que acredito.

Mas por que não faço?
Não sei.

Sinto que algo dentro de mim não me deixa fazer as coisas da maneira certa, mesmo se tento o máximo possível. Também já me questionei se essa é realmente a maneira certa, se só não quero fazer. A resposta foi sim, isso é o melhor para mim e tenho noção disso. É confortável ir para o lado ruim e autodestrutivo, é comum e sei fazer tão bem que sequer percebo.

Às vezes gostaria de não saber todas as coisas que eu preciso fazer, porque cada vez que não as faço, eu alimento um monstro. Cada dia é cheio de pequenas derrotas de coisas que não consegui fazer e me devoram um pouco de minha essência, como um câncer só esperando o momento certo de me consumir vivo.

Post

Como é tomar Lítio

1 comment

2018-02-07-2.pngCarbonato de Lítio, carinhosamente apelidado de Lítio (vendido comumente como Carbolitium) é um dos mais antigos e consolidados remédios para transtorno bipolar.

Apesar de sua eficácia, o lítio precisa manter um nível seguro no sangue devido a sua toxicidade, existem exames de sangue que ajudam a controlar esses níveis e quem está em tratamento deve ficar de olho. Muito lítio no sangue e você acaba intoxicado, muito pouco e o efeito nocivo não é sentido.

Alguns efeitos colaterais comuns (segundo a bula): 

  • Aumento na vontade de urinar.
  • Confusão mental e perda de memória.
  • Constipação.
  • Boca seca e/ou sede.
  • Tremores (em especial nas mãos).
  • Dores de cabeça.
  • Náusea.

Minha experiência: Já uso o lítio há quatro anos e é o único remédio até hoje que conseguiu me segurar das crises mais brabas que já passei, em especial as depressivas. Só que o medicamento é sacana e te acaba de outras maneiras com os efeitos colaterais.

Eu sempre sofri com muitos enjoos, tremores, idas frequentes ao banheiro durante o dia e boca seca. Com o tempo desenvolvi hipotireoidismo e precisei tratar em separado, também como uma queda cognitiva muito clara. O lítio também me deu um aumento de peso considerável.

Importante: este post traz minha experiência ao tomar o remédio, por favor não o considere conselho médico e trate de dúvidas com seu psiquiatra.