Post

Enjoos

Deixe uma resposta

Quando era adolescente, odiava tomar remédios, nunca conseguia engolir inteiro o que parecia sempre ter o tamanho de uma bala grande. O gosto dos remédios também não costumava ajudar. Como resultado sempre tinha aquele reflexo de ânsia de vômito (gag reflex, para os íntimos)

Também tive um histórico de bulimia no começo da vida adulta. Se comesse demais e a culpa batesse, era só colocar para fora. Para piorar, tinha muitos amigos que também faziam coisas similares.

Cresci e a necessidade de ser adulto bateu na porta. Ou aprendia a engolir os sete comprimidos diários ou não deixava de ficar triste.

Com a ajuda para resolver a vida, contamos com os milagres da medicina e todos esses remédios já criados até hoje. Só que com eles, também vêm os queridinhos dos efeitos colaterais. E adivinha um dos efeitos colaterais mais comuns em medicamentos psiquiátricos? Enjoos.

Enjoos são algo tão presentes na minha vida, que quando uso drogas ou fico muito ansioso, preciso me esforçar para não vomitar.

Acho que no fundo, meu organismo gosta de se manter “puro” e quer jogar para fora qualquer coisa que altere meu estado de ser, seja para o bem ou para o mal.

Ultimamente os enjoos da minha vida vem piorando. Fumar um cigarro? Enjoo. Comer um pouco demais? Vontade de colocar tudo para fora. Passar em frente a um restaurante japonês só trancando o nariz. Aquele comprimido grande que tomo à noite? Preciso meditar muito num céu azul antes de colocá-lo na boca. Depois de meu coquetel diário noturno costumo ficar uma meia hora respirando fundo tentando controlar os enjoos. Afinal jogar todos esses medicamentos descarga abaixo é economicamente inviável. Até coloquei mais um remédio no coquetel, um contra enjoos, mas sem muito sucesso.

Mas somos humanos e nos adaptamos as mais variadas situações com uma certa facilidade, não é mesmo?

comida-saudavel

Comecei a pensar que poderia usar esse drama todo a meu favor. Se estou constantemente enjoado por que não aproveito e faço refeições menores? Comecei a perceber que nem sempre eu comia o quanto comia com fome, era mais uma questão de hábito (por exemplo se meu time inteiro fosse almoçar meio dia em ponto, os acompanhava mesmo sem fome) ou para descontar frustrações do dia a dia.

Até aí nenhuma novidade, mas respeitar os enjoos se provou uma tarefa um tanto quanto interessante. Comecei a comer mais salada, fazer refeições sem o peso quase ritualístico que nada anteriormente. Em outras palavras, voltei a comer por necessidade apenas.

Ainda sinto certo desconforto após algumas refeições quando erro a dose ou em eventos sociais onde tem comida e álcool. Vez ou outra coloco tudo para fora. O que está tudo bem exceto quando acontece logo depois de tomar todos os remédios à noite, uma porque não vou tomar eles novamente e outra porque foi dinheiro ralo abaixo.

Hemorragia

Recentemente fui a um festival de música eletrônica e como poucas vezes no ano, decidi exagerar nas drogas. Mais específicamente no loló (lança perfume), ecstasy e LSD, tudo junto e misturado. Em seis amigos, usamos o equivalente a 6 litros de lança perfume em dois dias. Foi tanto, mas tanto, que todo mundo passou mal depois do festival.

Caso você não saiba os efeitos colaterais de muito lança perfume, um dos principais são os enjoos. Eu fiquei desesperado com a ideia de vomitar mais ainda depois de ver todos os meus amigos vomitando sem parar nos dias que seguiram o festival que tomei muito Plasil (remédio para enjoo).

Até aí tudo bem, fui viajar a trabalho logo depois do festival e no voo de ida, acordei com o olho vermelho, coisa que nunca tive na vida. Fiquei levemente desesperado, meu olho grudava ao piscar e colírio nenhum deixava ele melhor.

olho-cornea

Quando cheguei ao meu destino final, fui direto ao médico, que falou que eu tinha uma infecção bactericida (vulgo conjuntivite). Mandou passar uma colírio de 4 em 4 horas e uma pomada dentro do olho, coisa mais agoniante do mundo.

A vida seguiu, fui a reuniões, saí para comer com o pessoal do trabalho, correr no parque, etc. No terceiro dia, os remédios para enjoo não aguentavam mais, não somente enjoos, mas vômito acompanhado de sangue. Toda vez que vomitava, meu olho queria explodir e parecia que ficava mais vermelho, a um ponto onde eu mal conseguia identificar a cor, parecia tudo preto.

Continuei passando o colírio como a médica tinha pedido para fazer e uma semana depois, volto para casa, ainda com o olho bem vermelho e vou ao meu médico. Ele me diagnostica corretamente como uma hemorragia (isso explica porque os colírios não funcionaram) e que isso muito provavelmente poderia ter sido causado por impacto, vômito ou problemas de pressão no olho. Descartamos rapidamente as opções e ficou claro que os enjoos – tanto do lança perfume quanto do restante da vida – tinham causado isso.

E como quase qualquer coisa na minha vida, tudo tem que ser intenso, não basta ter apenas alguns enjoos, tem que vomitar a ponto de ter uma hemorragia.

Hoje sigo tentando conviver com os meus enjoos, o que percebo é que na maioria das vezes, eu quero fugir de uma situação e acabo passando mal. Como se meu organismo dissesse “não consigo lidar com essa situação, vou botar para fora”.

 

 

 

Post

Por um ano novo com mais sobriedade

1 comment

É final do ano, onde você vê aquele tio da família que você ama odiar, os amigos que inventam amigo secreto, a festa da firma, os eventos sociais, mais festas, a piscina no alto verão…

Quando eu usava drogas, essa era a melhor época do ano. Posso dizer com confiança que não ficava sóbrio durante o mês de dezembro. Começava a beber uma garrafa de vinho sozinho na quinta, cheirava com os amigos na sexta, saia para uma balada e usava balas no sábado e domingo me afundava na maconha. Um ritmo que meus médicos chamavam de “não sei como você não morreu”.

Mas depois do diagnóstico a seriedade bateu na porta e o conhecimento de que alguma merda grande poderia acontecer também, sabia que se continuasse nesse ritmo iria morrer mesmo, não seria só um puxão de orelha dos meus médicos.

E então fui diminuindo, parei de usar todas as drogas possíveis e por uma período (de 6 meses) até álcool parei completamente.

Isso já fazem três anos sem drogas, só voltei para o álcool e maconha com moderação. Eu adoro ir a festivais de música eletrônica e aguentá-los sem nada foi um grande desafio que consegui superar. Ir a baladas sem ficar cheirando, after parties sem MDMA e por ai vai…

Eu desenvolvi mecanismos para aguentar essas situações, depois de muita terapia percebi que na verdade, só estava usando drogas para aguentar alguma coisa. Fosse o cansaço quase sobre humano de ficar 12 horas em pé pulando, fosse a música que não estava boa em determinado DJ ou as aquela balada no centro que claramente você pegaria tétano se escorregasse nas paredes.

Depois que percebi isso, comecei a evitar lugares que sabia que não seriam legais, onde os DJs não seriam interessante ou não pudesse fugir caso quisesse ir embora. Isso incluiu deixar muitos amigos de balada para trás, mudar hábitos de programas e por ai vai.

A força para não usar nada vem do fato que eu posso desencadear uma crise de hipomania, depressão ou algo similar, estragar meu sistema imunológico e todo o dinheiro jogado fora com tratamento. Do que adianta gastar R$ 1.500 reais por mês de remédios, mais R$ 2.500 de estimulação transcraniana se você vai jogar tudo fora com um comprimido de ecstasy?

Desde então, finais de ano viraram uma data que eu precisava me controlar absurdamente para não fugir da linha, o que significava deixar de ir a festas, deixar de comparecer a happy hours e deixar os amigos achando que eu os estava ignorando. O que acabava sendo mais doloroso que o normal, já que além de deixar de lado as drogas –  o que nunca é tarefa fácil para quem tem histórico de abuso – eu não poderia me distrair com amigos facilmente.

Me restava jogar video-game sozinho, onde os amigos eram virtuais e provavelmente tinham 16 anos.

Ser infeliz nunca é justificável, mas essa época da minha vida sempre foi certeza de que as coisas seriam ruins, que eu estaria introspectivo e que me sentiria deslocado.

E todas as minhas tentativas de tentar me abrir sobre esse problema com alguém foram em vão, uns pensam que estou sendo dramático, outros que é só “ter mais força de vontade” enquanto outros não entendem como ficar sem beber e se drogar nessa época do ano pode ser tão difícil.

Fico incompreendido.

Esse ano

Esse ano, depois de três anos sendo certinho e não abusando de drogas e álcool em dezembro, decidi que poderia me dar uma folga. Afinal 2017 foi um ano muito complicado que precisava de um bota fora.

Embora estivesse tomando Revia – remédio para parar de beber que tira a vontade por álcool – eu comecei o mês indo a jantares e happy hours indiscriminadamente. Bebi tanto que ganhei 5kg quase mantendo a mesma dieta, só adicionando álcool.

Além disso, fiz uma coisa que não fazia há muito tempo, comprar maconha. A minha política desde que parei com drogas foi “não comprar, apenas usar dos amigos”. Abri uma exceção e quando menos vi estava bolando em casa e jogando video-game chapado regado a vinho branco.

Como amo jogar video-game, aproveitei o período “de férias” para ir a casa de um dos meus melhores amigos – que recentemente ficou desempregado e também estava nessa mesma sintonia – ficar chapado todo final de semana. Fumávamos e mergulhávamos no mundo virtual de Diablo para esquecermos de nossas vidas.

No natal, convidei o meu talvez-futuro-namorado para passar comigo o feriadão e montamos praticamente uma lan house para ficar jogando video-game, regada a muito vinho e maconha. Tanta maconha, inclusive, que em alguns momentos tivemos que parar porque nossos cérebros não conseguiam mais processar comandos complexos de um joystiq. Foi tão pesado que depois ele foi parar no hospital.

Chega o reveillon e com ele a viagem ao sul para acompanhar a temporada de festas na praia.

No primeiro dia, na primeira festa, tomei o LSD mais forte da minha vida. Eu tenho uma certa dificuldade de sentir o efeito (principalmente alucinógeno) do LSD, ainda mais agora tomando antipsicóticos (que costumam cortar esse efeito). Mas a experiência foi tão forte que tive que sentar em algum momento porque não me aguentava em pé com aquela corrente de serotonina pelo corpo.

Eu não cheguei a ter alucinações, mas lembro que estava tão louco, mas tão louco, que em alguns momentos eu fumava cigarro com a esperança de que essa loucura passasse (sem muito efeito), estava tão desacostumado a ficar louco que não sabia lidar com tudo aquilo. Eu comprei um colar e achei que era de couro, quando de fato era de madeira. Eu achei que brita era grama. Uma estranha veio falar comigo e eu não entendi nada do que ela falasse, como se fosse tudo em outra língua  e por aí vai. Quando passou, fiquei num misto de alívio e tristeza., mas não pensei muito e já tomei meio comprimido de ecstasy e continuei a noite bebendo.

No dia seguinte, não satisfeito, tomei meio comprimido de ecstasy e a mesma dose de LSD do dia anterior, que claro, não bateu. LSD cria uma resistência muito rápida no organismo.

A essa altura das coisas, já passado o ano novo, estou com muita azia, engordei quase 7kg, demorei horas para conseguir escrever esse texto e estou pronto para o próximo ano.

Que 2018 seja cheio de sobriedade e bom senso.

 

 

 

Post

Como é ter transtorno bipolar

Deixe uma resposta

Pensa no meu humor como um gráfico com altos e baixos e um eixo central. Preciso deixar ele o mais no centro possível custe o que custar, o único detalhe é que quase não tenho controle sobre ele.

humor-de-quem-tem-transtono-bipolar

Altos

Em uma quarta-feira um amigo decidiu me convidar pra sair no final de semana, eu não fazia isso há muito tempo porque não me sentia confiante e também porque vinha achando a noite de São Paulo uma bosta. Nesse caso era música que gostava e companhia também, aceitei sem hesitar. Lugares novos também me dão uma ansiedade tremenda, mas quanto mais se aproximava o dia mais ficava animado com a ideia de sair.

balao-transtorno-bipolar

Refeições – antes um pesadelo de gerenciar com a dieta – agora estavam fáceis, nunca sentia fome e sempre estava alerta e disposto. Durante a semana eu voltava da academia (a qual fui todos os dias pra compensar aulas que faltei) e me via no espelho antes de tomar banho como se tivesse emagrecido depois de cada aula, embora me pesasse todos os dias e não houve mudança alguma no número. O que importa é que estava extremamente confiante e feliz, até meu caminhar estava diferente, as piadas tinham mais graça e o ar um cheiro diferente.

Chega o sábado e acabo dormindo umas seis horas durante o dia, fiquei descansado para a noite. Não usei uma droga e acho que bebi no máximo três cervejas. Estava tudo ótimo, as pessoas pareciam não ficar naquele empurra-empurra típico, a música estava maravilhosa  e até consegui fazer amigos novos.

Todo aquele acúmulo de auto-estima e confiança foi traduzido em dança. Foi a primeira vez que sai e não fiquei pensando que desde o diagnóstico, eu sabia que era uma pessoa normal e que estava tudo bem. Depois de uma noite inteira pulando fui pra casa já durante o dia, mas antes passei na feira que fica na rua de casa e comprei um suco pra me hidratar, até conversava com os feirantes, os quais evitava passando pela rua de trás em outras ocasiões.

Não satisfeito e sem sono, decidi que não ia dormir e ficar em casa “de boa”. Acabei escrevendo uns três textos, adiantei uns dois dias de trabalho e organizei meu guarda-roupa antes de dormir lá pelas 23h do domingo. Só não sai pra correr porque no fundo sabia que não ia ser uma boa ideia.

Baixos

Também em um domingo só que em outro período do tempo, decido beber uma dose de whisky, 30 minutos depois descubro que não foi uma boa ideia e que o álcool começou a me levar pra um buraco de tristeza. Não posso tomar remédio pra me acalmar porque já tinha bebido, começo a pensar em coisas ruins, em como será minha vida, vejo como algo que está tentando me consumir aos poucos por dentro…

desastres-naturais

A segunda chega e no trabalho tudo está calmo porque parte do time está fora, não existe barulho ou intromissões todavia constantes, a temperatura está agradável, cenário perfeito pra me concentrar e fazer as coisas acontecerem, único detalhe que não consigo. De repente um vazio me consome como se minha alma tivesse sido sugada, sem motivo algum. Não conseguia fazer mais nada, quem sabe focar em projetos pessoais e ver se ajuda? Nem pensar, não consigo fazer nem isso. De fato estou tão paralisado que tive que cancelar uma reunião, estava triste demais apenas de pensar em realizá-la. Tenho certeza que as pessoas cruzavam comigo no corredor e pensavam porque meu olhar estava tão vago.

Isso se estende pela semana inteira e é extremamente difícil disfarçar. Embora tenha apoio incondicional de todos que sabem da doença – inclusive do meu chefe – não me sinto bem nem confortável de falar com ninguém, só quero sumir, ficar sozinho, desparecer. O dia vai acabando e o fato de que preciso voltar pra casa e tem o trajeto até o ponto, esperar, entrar no ônibus com um monte de gente e viajar por 40 minutos até em casa me dá calafrios só de imaginar, pego táxi. A academia que viria no meio disso também foi abandonada. A essa altura já estou tentando suprir o vazio com um chocolate, mesmo sem fome alguma e não ser muito fã do quitute.

Sempre que vejo uma oportunidade já estou idealizando o suicídio. Por que não se jogar na frente desse ônibus? Em lugares altos sempre olho pra baixo e penso algo similar ou como seria a experiência de cair. Embora mórbido são apenas pensamentos, nada de tentativas, nunca.

Essa tristeza vai crescendo e o vazio vai ficando maior como se fosse um câncer. Nos meus piores dias eu sequer saia de casa pra trabalhar. Ainda bem que os benzos existem, senão sequer sairia da cama.

Remédios

Benzodiazepinas é um grupo de substâncias apelidadas carinhosamente de benzos utilizados como ansiolíticos, relaxantes musculares e anticonvulsionantes. Vários remédios conhecidos como o Rivotril, Valium e Frontal (os quais tenho uma coleção) fazem parte dessa classe que é a droga mais prescrita do mundo desde 1977. No meu caso ela segura meus dias de tristeza mais profunda, ansiedade, stress, entre outras coisas pontuais. O único lado ruim é que seu corpo desenvolve resistencia e no meu caso em específico (assunto pra outro post) mais rápido ainda, então ultimamente nem posso mais contar com eles, eu e minha psiquiatra estamos trabalhando alternativas.

remedios

Antidepressivos, outra classe amplamente prescrita de remédios não fazem efeito em mim. De fato na maioria das pessoas com transtorno afetivo bipolar ele pode desencadear crises de hipomania (altos) ou depressão (baixos). Já tentei e se tem uma coisa que deixo bem claro pra minha psiquiatra é que não voltarei atrás.

Quem tem transtorno bipolar tem uma classe de medicamentos inteira pra chamar de sua: estabilizadores de humor. Uma das alternativas foi os sais de valproato, que também não me ajudaram muito.

Do outro lado tem a salvação da minha vida, o remédio dos remédios, o muso do meu humor: o lítio (Carbonato de Lítio). Você deve estar se perguntando porque tomo o mesmo composto que tem na bateria de um celular (e também é usado pra fazer vidros a prova de fogo e na fabricação de alumínio). O lítio é um dos estabilizadores de humor mais antigos, desde 1948 ajudando pessoas como eu a viver. O lítio é complicado e os efeitos colaterais são chatos: ir ao banheiro o tempo todo, boca seca, hipotireoidismo, dificuldade de fazer exercícios e problemas de cognição. Também tenho que fazer exame de sangue e controlar assiduamente os índices no sangue porque a dose terapêutica é bem similar a dose tóxica, que pode matar.

Ou foi a terapia. Ou a meditação. Ou a corrida. Ou a diminuição de stress no trabalho. O problema de ter uma doença mental é que não dá pra fazer um exame de sangue e descobrir se você está bem ou mal. É tudo muito subjetivo e depende de muitos fatores. No momento estou tentando uma nova dose de remédios que potencialmente pode me deixar meio vegetal por algumas semanas, mas pensando no longo prazo vai ajudar.

Ao contrário do que muita gente pensa, quem tem transtorno bipolar não varia como relatei acima durante o dia ou muda de ideia o tempo todo. As variações ocorrem em média de semanas e nem sempre são constantes. No meu caso tive que ficar fazendo um diário de como me sentia quatro vezes ao dia durante meses até descobrir o período, mas não garante que as coisas podem mudar. Álcool e drogas pioram tudo e no começo do diagnóstico eu insistia em usá-los, mas essa história fica pra próxima.

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Post

Como é ter TDAH ( Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade)

Deixe uma resposta

Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) é uma doença que mexe com os padrões de atenção / concentração de uma pessoa. Quem tem costuma procrastinar muita coisa na vida, está esquecendo coisas e além de tudo costuma ser hiperativo.

004-060-tomography-xray-brain-medicine

Existem três subtipos de TDAH: 1) TDAH com predomínio de sintomas de hiperatividade/impulsividade; 2) TDAH com predomínio de sintomas de desatenção e; 3) TDAH combinado. Vou falar um pouco da minha experiência pessoal do aqui apenas do segundo subtipo, já que me afeta.

Segundo o manual DSM 5 (que é praticamente um dicionário de doenças mentais e a maioria dos psiquiatras usam pra diagnosticar os pacientes) estes são os sintomas. É necessário apresentar pelo menos seis por um período de seis meses ou mais:

  1. Freqüentemente não presta atenção em detalhes e comete erros por puro descuido (não percebe detalhes, o trabalho não é exato)
  2. Freqüentemente mostra dificuldade para manter a atenção, como por exemplo em palestras, leituras mais longas ou conversas
  3. Com freqüência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra (a cabeça parece estar em outro lugar)
  4. Freqüentemente não segue instruções e não completa deveres escolares, tarefas domésticas ou profissionais ((inicia uma tarefa mas facilmente perde o foco e se desvia))
  5. Freqüentemente tem dificuldade para organizar tarefas e atividades (dificuldade em seguir tarefas em sequencia, em manter os pertences em ordem, dificuldade em administrar o tempo, em cumprir prazos)
  6. Freqüentemente evita, antipatiza ou reluta se envolver em tarefas que vão exigir um esforço mental prolongado (como trabalhos de casa. Adultos mostram dificuldades em fazer relatórios, ou rever documentos mais longos)
  7. Freqüentemente perde objetos necessários para suas tarefas e atividades (material escolar, chaves, óculos, documentos, celular)
  8. Facilmente se distrai por estímulos alheios à sua tarefa (em adultos, pensamentos não diretamente relacionados ao tema)
  9. Com freqüência mostra esquecimento nas atividades do dia-a dia (cumprir tarefas, e em adultos, retornar telefonemas, pagar contas)

Agora eu sei que você deve estar lendo isso e pensando “nossa eu tenho TDAH”. Acho que nunca na minha vida expliquei pra alguém como é ter transtorno de déficit de atenção sem a pessoa falar isso ou fazer alguma piada sobre como querem meus medicamentos. Esses sintomas são bem frequentes em pessoas “normais”, agora se você ficou boa parte da sua vida adulta sentindo eles, procure um bom psiquiatra.

Depois entendi que essa é uma das doenças mentais mais diagnosticadas do mundo. A coisa fica pior quando se trata de crianças e colocamos o “H” no “TDA” tornando-a doença Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade predominantemente hiperativo. Então imagina uma criança desatenta na escola, hiperativa em casa e desobediente. A mãe leva até um médico que de cara já receita a Ritalina baseado nos sintomas acima.

004-010-brain-intellect-knowledge-biology-anatomy-clever-smart-mind-medicine

Além disso outro instrumento de diagnóstico é a avaliação neuropsicológica, que é basicamente uma tortura. Você vai até um psicólogo especializado no tema (cognição, memória, demência, etc) e passa por uma bateria de aproximadamente cinco horas de testes. Fica montando quebra-cabeças, repetindo histórias que foram contadas, testes de QI, entre outras coisas. No final recebe uma nota pra cada quesito comparado com a população em geral. No meu caso o gráfico foi bem pra baixo nos indicadores de atenção.

Só para que se tenha uma ideia, o TDAH possui uma incidência relativamente rara em sua forma isolada – respondendo por, aproximadamente, apenas 20% dos casos diagnosticados. Mais de 50% dos casos de TDAH vêm acompanhados de, pelo menos, duas outras desordens, além do próprio TDAH. [2]

Do que mesmo eu estava falando? Ah sim, de como é viver com transtorno de déficit de atenção…

Não bastasse meu transtorno bipolar, histórico de abuso de álcool e ansiedade, tenho TDAH (a versão sem hiperatividade). Dos males o pior e descobri que esse é o mais fácil de controlar mas também o mais frustrante, podendo alimentar os outros.

music-entertainment-26-400x400

Minha vida com transtorno de déficit de atenção

  • Quando acordo a vida não faz sentido e tudo é muito difícil, amarrar o tênis parece ter a mesma dificuldade que levantar um haltere
  • Aliás nunca sei se passaram minutos ou horas, sempre estou perdido na noção de tempo. Acho que já to escrevendo este texto há semanas
  • Faz muito tempo que não consigo ler um livro inteiro, mesmo que de muito interesse
  • Assistir um filme no cinema é praticamente uma tortura
  • Assistir seriados de 1 hora? Só se tiver uma pausa de um dia no meio de cada episódio
  • Sabe aquela situação de assistir TV e perder o tempo? No meu caso é exponencial e já virei a noite sem perceber
  • Em reuniões sempre interrompo as pessoas antes delas terminarem de falar. É muito difícil entender o momento certo, simplesmente acho que elas acabaram mas nunca é o caso
  • Todas as contas vencem no mesmo dia. Mesmo assim, frequentemente recebo ligações de algum lugar me lembrando de pagar
  • Como numa maldição, quanto mais eu tento me concentrar em algo que não consigo prestar atenção, mais difícil é
  • As pessoas falam que eu transmito uma calma, mas por dentro minha cabeça é sempre caótica
  • Até hoje não sei o nome de pessoas que trabalham comigo há mais de um ano
  • É raro o dia em que estou prestes a entrar no elevador pra ir trabalhar e não preciso voltar pra pegar algo esquecido
  • Além desse blog eu tenho mais 4, adivinha quantos eu atualizo frequentemente?
  • Estou no sofá da sala e decido ir pra cozinha. Mas chegando lá esqueci o que ia fazer, ou pior, faço outra coisa e depois de meia hora lembro que deveria ter feito inicialmente

home-appliances-02-400x400

Eu tenho a mania de ler tudo sobre um assunto quando fico interessado, ainda mais quando me afeta. Quanto mais me aprofundava na literatura especializada, mais ficava convencido de que o diagnóstico estava certo.

Apesar de tudo indicado acima, sempre fui uma pessoa que viveu com TDAH por boa parte da vida sem problemas, inclusive desenvolvi minhas próprias técnicas pra driblar problemas de atenção. O pior de tudo é que só percebi isso durante a terapia onde estava “aprendendo” esses truques de novo.

Truques pra driblar o transtorno de déficit de atenção

  • A chave sempre fica no mesmo lugar. No mesmo bolso. No mesmo lado. Também vale pra outros objetos importantes
  • Só uso uma carteira e sempre no bolso esquerdo da calça, se estiver em casa, ela fica em cima da mesa
  • Não tenho TV a cabo em casa nem assino Netflix. Assim não existe a possibilidade de ficar distraído
  • Só tenho uma mochila pra evitar perder coisas
  • Tudo, absolutamente tudo, tem um lugar na minha casa, assim evito ficar procurando algo
  • Criei modelos mentais e regras pra tudo que é importante: chave, carteira, celular. Peso do notebook na mochila. Casaco caso a temperatura fique abaixo de determinado ponto. Já configurei um alerta se devo levar guarda-chuva ou não no dia seguinte baseado na probabilidade de chuva

Infelizmente por causa de vários fatores – em especial abuso de álcool e drogas – a minha atenção foi-se embora com a idade e o TDAH ficou tão ruim a ponto de meu trabalho ser fortemente afetado (leia-se, quase sendo demitido), foi nesse momento que decidi procurar ajuda e comecei o tratamento com remédios.

Nação Ritalina

Além de terapia e mudanças de comportamento, o tratamento também pode ser feito com remédios. As drogas utilizadas para tratar Transtorno de déficit de atenção são uma das classes mais pesadas que já conheci. O tratamento é feito quase que exclusivamente com estimulantes do sistema nervoso central. Na maioria das vezes através de anfetaminas e derivados. Eles agem aumentando o nível de dopamina no cérebro.

drugstore-35-400x400

Em geral os efeitos são

  • Euforia
  • Sensação de alerta
  • Habilidade de concentração
  • Melhora na memória
  • Auto-confiança aumentada

Spoiler: Caso você nunca tenha utilizado cocaína, são os mesmos efeitos.

Embora estudos[1] indiquem que se uma pessoa saudável utilizar esses medicamentos os efeitos de melhora de atenção não são percebidos, existem muitas pessoas que utilizam elas de forma recreativa ou durante época de final de semestre na faculdade. Em especial o mais popular dos medicamentos, a Ritalina. O que acontece é que as pessoas sentem os efeitos mencionados acima (em especial euforia e sensação de alerta) e acreditam que a cognição melhorou.

O Brasil é o segundo país do mundo onde a Ritalina é mais consumido, perdendo só para os EUA. Lembra da criança hiperativa que ficava viajando mencionada lá em cima? Com Ritalina ela fica calminha até meio zumbi.

Enquanto isso, a Ritalina também entra no mercado dos jovens e das baladas. A medicação inibe o apetite e, portanto, promove emagrecimento. Além disso, oferece o efeito “estou podendo” — ou seja, dá a sensação de raciocínio rápido, capacidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, muito animação e estímulo sexual — ou, pelo menos, a impressão disso. “Não há ressaca ou qualquer efeito no dia seguinte e nem é preciso beber para ficar loucaça”, diz uma usuária da droga nas suas incursões noturnas às baladas de São Paulo. “Eu tomo logo umas duas e saio causando, beijando todo mundo, dançando o tempo todo, curtindo mesmo”, diz ela. (via Ritalina, a droga legal que ameaça o futuro).

Efeitos colaterais

Além de causar dependência, o corpo desenvolve uma resistência rápida comparada a outras classes de medicamento. Os efeitos colaterais também não deixam barato:

  • Nervosismo
  • Insônia
  • Diminuição do apetite, náuseas, boca seca
  • Taquicardia, palpitação, arritmias
  • Rash (erupção cutânea), prurido, urticária

A maioria deles passa depois de um tempo ou pode ser administrado, como por exemplo tomar a dose após as refeições pra evitar as náuseas. Mas outros ficam, o uso contínuo também

004-056-dragee-vitamin-vitamine-remedy-medicine

Segundo dados do IBGE, até 2010 existiam 924.732 pessoas com TDAH no Brasil, mas apenas 184.481 estavam em tratamento. Também está no preço outro vilão, a caixa de Ritalina co 30 comprimidos absorção lenta custava mais de R$200 em uma farmácia próxima a minha casa. Agora estou tomando o Venvanse, que custa R$359 caixa também com 30 comprimidos. Com o tempo você desenvolve outras técnicas pra aprender a viver com a doença, espero um dia também me livrar dos remédios e da eterna boca seca.


Lembrando que esse post não foi escrito por médicos e a sua intenção é descomplicar o entendimento de uma doença com relatos pessoais. Não use ele como referência para diagnóstico, doenças mentais precisam de uma avaliação extensa. Na dúvida procure um psiquiatra.


Outras fontes

[2] Koziol, L F et al., 2013. “ADHD as a Model of Brain-Behavior Relationships”. SpringerBriefs in Neuroscience – The Vertically Organized Brain in Theory and Practice, Springer

[1] Spencer RC, Devilbiss DM, Berridge CW, June 2015. “The Cognition-Enhancing Effects of Psychostimulants Involve Direct Action in the Prefrontal Cortex“.

DrugFacts: Stimulant ADHD Medications: Methylphenidate and Amphetamines

Reações adversas da Ritalina

 

Post

O medo de estar tudo bem

1 comment

Hoje eu dormi cinco horas e acordei bem. Mal abri o olho e já tinha respondido algumas mensagens no chat do trabalho. Sequer sai da cama e estava com o computador no colo respondendo alguns e-mails.

Ao chegar no trabalho, consegui terminar em uma hora um relatório que levaria provavelmente umas seis, não só o terminei como consegui preparar de uma maneira diferente que rendeu elogios do chefe ao final do dia.

Estava com problemas burocráticos em outro projeto para fazê-lo sair do papel. Passei no jurídico e financeiro e depois de uma conversa meio tensa onde precisei ser firme e bater de frente, consegui desempacar a situação.

E a cereja do bolo foi quando ocorria um evento interno para 300 pessoas e um participante critica abertamente um dos produtos que cuido para a liderança presente e ainda questiona se fariam algo. Eu – com a maior naturalidade do mundo – fui até a frente do palco, calmamente peguei o microfone do diretor e respondi na frente da empresa inteira os planos de lançamento.

Se você não me conhece, deixa te explicar: esse relatório e esse projeto estavam se arrastando por meses como se fossem um câncer em mim e eu tenho pavor de falar em público sem me preparar anteriormente.

Sim, era um dia bom. Sem falar na dieta que consegui seguir à risca.

Só que dias bons não costumam ser bom sinal.

De repente já eram 22h e eu me deparei quase no susto ainda no escritório trabalhando respondendo e-mails como uma máquina.

Foi quando comecei a me questionar. Isso não era normal. Em qualquer outro momento, estaria me flagelando de stress, pensando em comida, bebida, alguma válvula de escape.

Esse é um medo constante, o medo de ficar bem. Porque ficar tão bem assim só pode significar uma coisa: hipomania.

Hipomania é uma das fases de quem tem transtorno afeto bipolar. De maneira simplista dá pra se dizer que é o contrário da fase depressiva.

Será que estava começando a ficar hipomaníaco? Me passou isso pela cabeça e logo deixei essa ideia de lado. Fui fazer uma salada e assistir uma série. Mas estava inquieto e comia com uma mão, ficava no celular vendo o Instagram com outra e assistia a uma série. Quando menos percebi abandonei 2/3 da salada de lado e já sem fome fui procurar outra coisa para fazer.

Enquanto tomava banho, já depois da meia noite, voltei a pensar nas implicações de estar assim: será que estou? Será que não estou? Será que é apenas um dia bom? Essa inquietude de não poder confiar nos próprios sentimentos é algo que me persegue e sempre precisarei aprender a lidar, para o resto da minha vida. E sabe do pior? É isso que me torna quem sou.

Só espero que esse carrinho de montanha russa não caia tão cedo…