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Enjoos

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Quando era adolescente, odiava tomar remédios, nunca conseguia engolir inteiro o que parecia sempre ter o tamanho de uma bala grande. O gosto dos remédios também não costumava ajudar. Como resultado sempre tinha aquele reflexo de ânsia de vômito (gag reflex, para os íntimos)

Também tive um histórico de bulimia no começo da vida adulta. Se comesse demais e a culpa batesse, era só colocar para fora. Para piorar, tinha muitos amigos que também faziam coisas similares.

Cresci e a necessidade de ser adulto bateu na porta. Ou aprendia a engolir os sete comprimidos diários ou não deixava de ficar triste.

Com a ajuda para resolver a vida, contamos com os milagres da medicina e todos esses remédios já criados até hoje. Só que com eles, também vêm os queridinhos dos efeitos colaterais. E adivinha um dos efeitos colaterais mais comuns em medicamentos psiquiátricos? Enjoos.

Enjoos são algo tão presentes na minha vida, que quando uso drogas ou fico muito ansioso, preciso me esforçar para não vomitar.

Acho que no fundo, meu organismo gosta de se manter “puro” e quer jogar para fora qualquer coisa que altere meu estado de ser, seja para o bem ou para o mal.

Ultimamente os enjoos da minha vida vem piorando. Fumar um cigarro? Enjoo. Comer um pouco demais? Vontade de colocar tudo para fora. Passar em frente a um restaurante japonês só trancando o nariz. Aquele comprimido grande que tomo à noite? Preciso meditar muito num céu azul antes de colocá-lo na boca. Depois de meu coquetel diário noturno costumo ficar uma meia hora respirando fundo tentando controlar os enjoos. Afinal jogar todos esses medicamentos descarga abaixo é economicamente inviável. Até coloquei mais um remédio no coquetel, um contra enjoos, mas sem muito sucesso.

Mas somos humanos e nos adaptamos as mais variadas situações com uma certa facilidade, não é mesmo?

comida-saudavel

Comecei a pensar que poderia usar esse drama todo a meu favor. Se estou constantemente enjoado por que não aproveito e faço refeições menores? Comecei a perceber que nem sempre eu comia o quanto comia com fome, era mais uma questão de hábito (por exemplo se meu time inteiro fosse almoçar meio dia em ponto, os acompanhava mesmo sem fome) ou para descontar frustrações do dia a dia.

Até aí nenhuma novidade, mas respeitar os enjoos se provou uma tarefa um tanto quanto interessante. Comecei a comer mais salada, fazer refeições sem o peso quase ritualístico que nada anteriormente. Em outras palavras, voltei a comer por necessidade apenas.

Ainda sinto certo desconforto após algumas refeições quando erro a dose ou em eventos sociais onde tem comida e álcool. Vez ou outra coloco tudo para fora. O que está tudo bem exceto quando acontece logo depois de tomar todos os remédios à noite, uma porque não vou tomar eles novamente e outra porque foi dinheiro ralo abaixo.

Hemorragia

Recentemente fui a um festival de música eletrônica e como poucas vezes no ano, decidi exagerar nas drogas. Mais específicamente no loló (lança perfume), ecstasy e LSD, tudo junto e misturado. Em seis amigos, usamos o equivalente a 6 litros de lança perfume em dois dias. Foi tanto, mas tanto, que todo mundo passou mal depois do festival.

Caso você não saiba os efeitos colaterais de muito lança perfume, um dos principais são os enjoos. Eu fiquei desesperado com a ideia de vomitar mais ainda depois de ver todos os meus amigos vomitando sem parar nos dias que seguiram o festival que tomei muito Plasil (remédio para enjoo).

Até aí tudo bem, fui viajar a trabalho logo depois do festival e no voo de ida, acordei com o olho vermelho, coisa que nunca tive na vida. Fiquei levemente desesperado, meu olho grudava ao piscar e colírio nenhum deixava ele melhor.

olho-cornea

Quando cheguei ao meu destino final, fui direto ao médico, que falou que eu tinha uma infecção bactericida (vulgo conjuntivite). Mandou passar uma colírio de 4 em 4 horas e uma pomada dentro do olho, coisa mais agoniante do mundo.

A vida seguiu, fui a reuniões, saí para comer com o pessoal do trabalho, correr no parque, etc. No terceiro dia, os remédios para enjoo não aguentavam mais, não somente enjoos, mas vômito acompanhado de sangue. Toda vez que vomitava, meu olho queria explodir e parecia que ficava mais vermelho, a um ponto onde eu mal conseguia identificar a cor, parecia tudo preto.

Continuei passando o colírio como a médica tinha pedido para fazer e uma semana depois, volto para casa, ainda com o olho bem vermelho e vou ao meu médico. Ele me diagnostica corretamente como uma hemorragia (isso explica porque os colírios não funcionaram) e que isso muito provavelmente poderia ter sido causado por impacto, vômito ou problemas de pressão no olho. Descartamos rapidamente as opções e ficou claro que os enjoos – tanto do lança perfume quanto do restante da vida – tinham causado isso.

E como quase qualquer coisa na minha vida, tudo tem que ser intenso, não basta ter apenas alguns enjoos, tem que vomitar a ponto de ter uma hemorragia.

Hoje sigo tentando conviver com os meus enjoos, o que percebo é que na maioria das vezes, eu quero fugir de uma situação e acabo passando mal. Como se meu organismo dissesse “não consigo lidar com essa situação, vou botar para fora”.

 

 

 

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