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Por um ano novo com mais sobriedade

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É final do ano, onde você vê aquele tio da família que você ama odiar, os amigos que inventam amigo secreto, a festa da firma, os eventos sociais, mais festas, a piscina no alto verão…

Quando eu usava drogas, essa era a melhor época do ano. Posso dizer com confiança que não ficava sóbrio durante o mês de dezembro. Começava a beber uma garrafa de vinho sozinho na quinta, cheirava com os amigos na sexta, saia para uma balada e usava balas no sábado e domingo me afundava na maconha. Um ritmo que meus médicos chamavam de “não sei como você não morreu”.

Mas depois do diagnóstico a seriedade bateu na porta e o conhecimento de que alguma merda grande poderia acontecer também, sabia que se continuasse nesse ritmo iria morrer mesmo, não seria só um puxão de orelha dos meus médicos.

E então fui diminuindo, parei de usar todas as drogas possíveis e por uma período (de 6 meses) até álcool parei completamente.

Isso já fazem três anos sem drogas, só voltei para o álcool e maconha com moderação. Eu adoro ir a festivais de música eletrônica e aguentá-los sem nada foi um grande desafio que consegui superar. Ir a baladas sem ficar cheirando, after parties sem MDMA e por ai vai…

Eu desenvolvi mecanismos para aguentar essas situações, depois de muita terapia percebi que na verdade, só estava usando drogas para aguentar alguma coisa. Fosse o cansaço quase sobre humano de ficar 12 horas em pé pulando, fosse a música que não estava boa em determinado DJ ou as aquela balada no centro que claramente você pegaria tétano se escorregasse nas paredes.

Depois que percebi isso, comecei a evitar lugares que sabia que não seriam legais, onde os DJs não seriam interessante ou não pudesse fugir caso quisesse ir embora. Isso incluiu deixar muitos amigos de balada para trás, mudar hábitos de programas e por ai vai.

A força para não usar nada vem do fato que eu posso desencadear uma crise de hipomania, depressão ou algo similar, estragar meu sistema imunológico e todo o dinheiro jogado fora com tratamento. Do que adianta gastar R$ 1.500 reais por mês de remédios, mais R$ 2.500 de estimulação transcraniana se você vai jogar tudo fora com um comprimido de ecstasy?

Desde então, finais de ano viraram uma data que eu precisava me controlar absurdamente para não fugir da linha, o que significava deixar de ir a festas, deixar de comparecer a happy hours e deixar os amigos achando que eu os estava ignorando. O que acabava sendo mais doloroso que o normal, já que além de deixar de lado as drogas –  o que nunca é tarefa fácil para quem tem histórico de abuso – eu não poderia me distrair com amigos facilmente.

Me restava jogar video-game sozinho, onde os amigos eram virtuais e provavelmente tinham 16 anos.

Ser infeliz nunca é justificável, mas essa época da minha vida sempre foi certeza de que as coisas seriam ruins, que eu estaria introspectivo e que me sentiria deslocado.

E todas as minhas tentativas de tentar me abrir sobre esse problema com alguém foram em vão, uns pensam que estou sendo dramático, outros que é só “ter mais força de vontade” enquanto outros não entendem como ficar sem beber e se drogar nessa época do ano pode ser tão difícil.

Fico incompreendido.

Esse ano

Esse ano, depois de três anos sendo certinho e não abusando de drogas e álcool em dezembro, decidi que poderia me dar uma folga. Afinal 2017 foi um ano muito complicado que precisava de um bota fora.

Embora estivesse tomando Revia – remédio para parar de beber que tira a vontade por álcool – eu comecei o mês indo a jantares e happy hours indiscriminadamente. Bebi tanto que ganhei 5kg quase mantendo a mesma dieta, só adicionando álcool.

Além disso, fiz uma coisa que não fazia há muito tempo, comprar maconha. A minha política desde que parei com drogas foi “não comprar, apenas usar dos amigos”. Abri uma exceção e quando menos vi estava bolando em casa e jogando video-game chapado regado a vinho branco.

Como amo jogar video-game, aproveitei o período “de férias” para ir a casa de um dos meus melhores amigos – que recentemente ficou desempregado e também estava nessa mesma sintonia – ficar chapado todo final de semana. Fumávamos e mergulhávamos no mundo virtual de Diablo para esquecermos de nossas vidas.

No natal, convidei o meu talvez-futuro-namorado para passar comigo o feriadão e montamos praticamente uma lan house para ficar jogando video-game, regada a muito vinho e maconha. Tanta maconha, inclusive, que em alguns momentos tivemos que parar porque nossos cérebros não conseguiam mais processar comandos complexos de um joystiq. Foi tão pesado que depois ele foi parar no hospital.

Chega o reveillon e com ele a viagem ao sul para acompanhar a temporada de festas na praia.

No primeiro dia, na primeira festa, tomei o LSD mais forte da minha vida. Eu tenho uma certa dificuldade de sentir o efeito (principalmente alucinógeno) do LSD, ainda mais agora tomando antipsicóticos (que costumam cortar esse efeito). Mas a experiência foi tão forte que tive que sentar em algum momento porque não me aguentava em pé com aquela corrente de serotonina pelo corpo.

Eu não cheguei a ter alucinações, mas lembro que estava tão louco, mas tão louco, que em alguns momentos eu fumava cigarro com a esperança de que essa loucura passasse (sem muito efeito), estava tão desacostumado a ficar louco que não sabia lidar com tudo aquilo. Eu comprei um colar e achei que era de couro, quando de fato era de madeira. Eu achei que brita era grama. Uma estranha veio falar comigo e eu não entendi nada do que ela falasse, como se fosse tudo em outra língua  e por aí vai. Quando passou, fiquei num misto de alívio e tristeza., mas não pensei muito e já tomei meio comprimido de ecstasy e continuei a noite bebendo.

No dia seguinte, não satisfeito, tomei meio comprimido de ecstasy e a mesma dose de LSD do dia anterior, que claro, não bateu. LSD cria uma resistência muito rápida no organismo.

A essa altura das coisas, já passado o ano novo, estou com muita azia, engordei quase 7kg, demorei horas para conseguir escrever esse texto e estou pronto para o próximo ano.

Que 2018 seja cheio de sobriedade e bom senso.

 

 

 

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