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Como é ter transtorno bipolar

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Pensa no meu humor como um gráfico com altos e baixos e um eixo central. Preciso deixar ele o mais no centro possível custe o que custar, o único detalhe é que quase não tenho controle sobre ele.

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Altos

Em uma quarta-feira um amigo decidiu me convidar pra sair no final de semana, eu não fazia isso há muito tempo porque não me sentia confiante e também porque vinha achando a noite de São Paulo uma bosta. Nesse caso era música que gostava e companhia também, aceitei sem hesitar. Lugares novos também me dão uma ansiedade tremenda, mas quanto mais se aproximava o dia mais ficava animado com a ideia de sair.

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Refeições – antes um pesadelo de gerenciar com a dieta – agora estavam fáceis, nunca sentia fome e sempre estava alerta e disposto. Durante a semana eu voltava da academia (a qual fui todos os dias pra compensar aulas que faltei) e me via no espelho antes de tomar banho como se tivesse emagrecido depois de cada aula, embora me pesasse todos os dias e não houve mudança alguma no número. O que importa é que estava extremamente confiante e feliz, até meu caminhar estava diferente, as piadas tinham mais graça e o ar um cheiro diferente.

Chega o sábado e acabo dormindo umas seis horas durante o dia, fiquei descansado para a noite. Não usei uma droga e acho que bebi no máximo três cervejas. Estava tudo ótimo, as pessoas pareciam não ficar naquele empurra-empurra típico, a música estava maravilhosa  e até consegui fazer amigos novos.

Todo aquele acúmulo de auto-estima e confiança foi traduzido em dança. Foi a primeira vez que sai e não fiquei pensando que desde o diagnóstico, eu sabia que era uma pessoa normal e que estava tudo bem. Depois de uma noite inteira pulando fui pra casa já durante o dia, mas antes passei na feira que fica na rua de casa e comprei um suco pra me hidratar, até conversava com os feirantes, os quais evitava passando pela rua de trás em outras ocasiões.

Não satisfeito e sem sono, decidi que não ia dormir e ficar em casa “de boa”. Acabei escrevendo uns três textos, adiantei uns dois dias de trabalho e organizei meu guarda-roupa antes de dormir lá pelas 23h do domingo. Só não sai pra correr porque no fundo sabia que não ia ser uma boa ideia.

Baixos

Também em um domingo só que em outro período do tempo, decido beber uma dose de whisky, 30 minutos depois descubro que não foi uma boa ideia e que o álcool começou a me levar pra um buraco de tristeza. Não posso tomar remédio pra me acalmar porque já tinha bebido, começo a pensar em coisas ruins, em como será minha vida, vejo como algo que está tentando me consumir aos poucos por dentro…

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A segunda chega e no trabalho tudo está calmo porque parte do time está fora, não existe barulho ou intromissões todavia constantes, a temperatura está agradável, cenário perfeito pra me concentrar e fazer as coisas acontecerem, único detalhe que não consigo. De repente um vazio me consome como se minha alma tivesse sido sugada, sem motivo algum. Não conseguia fazer mais nada, quem sabe focar em projetos pessoais e ver se ajuda? Nem pensar, não consigo fazer nem isso. De fato estou tão paralisado que tive que cancelar uma reunião, estava triste demais apenas de pensar em realizá-la. Tenho certeza que as pessoas cruzavam comigo no corredor e pensavam porque meu olhar estava tão vago.

Isso se estende pela semana inteira e é extremamente difícil disfarçar. Embora tenha apoio incondicional de todos que sabem da doença – inclusive do meu chefe – não me sinto bem nem confortável de falar com ninguém, só quero sumir, ficar sozinho, desparecer. O dia vai acabando e o fato de que preciso voltar pra casa e tem o trajeto até o ponto, esperar, entrar no ônibus com um monte de gente e viajar por 40 minutos até em casa me dá calafrios só de imaginar, pego táxi. A academia que viria no meio disso também foi abandonada. A essa altura já estou tentando suprir o vazio com um chocolate, mesmo sem fome alguma e não ser muito fã do quitute.

Sempre que vejo uma oportunidade já estou idealizando o suicídio. Por que não se jogar na frente desse ônibus? Em lugares altos sempre olho pra baixo e penso algo similar ou como seria a experiência de cair. Embora mórbido são apenas pensamentos, nada de tentativas, nunca.

Essa tristeza vai crescendo e o vazio vai ficando maior como se fosse um câncer. Nos meus piores dias eu sequer saia de casa pra trabalhar. Ainda bem que os benzos existem, senão sequer sairia da cama.

Remédios

Benzodiazepinas é um grupo de substâncias apelidadas carinhosamente de benzos utilizados como ansiolíticos, relaxantes musculares e anticonvulsionantes. Vários remédios conhecidos como o Rivotril, Valium e Frontal (os quais tenho uma coleção) fazem parte dessa classe que é a droga mais prescrita do mundo desde 1977. No meu caso ela segura meus dias de tristeza mais profunda, ansiedade, stress, entre outras coisas pontuais. O único lado ruim é que seu corpo desenvolve resistencia e no meu caso em específico (assunto pra outro post) mais rápido ainda, então ultimamente nem posso mais contar com eles, eu e minha psiquiatra estamos trabalhando alternativas.

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Antidepressivos, outra classe amplamente prescrita de remédios não fazem efeito em mim. De fato na maioria das pessoas com transtorno afetivo bipolar ele pode desencadear crises de hipomania (altos) ou depressão (baixos). Já tentei e se tem uma coisa que deixo bem claro pra minha psiquiatra é que não voltarei atrás.

Quem tem transtorno bipolar tem uma classe de medicamentos inteira pra chamar de sua: estabilizadores de humor. Uma das alternativas foi os sais de valproato, que também não me ajudaram muito.

Do outro lado tem a salvação da minha vida, o remédio dos remédios, o muso do meu humor: o lítio (Carbonato de Lítio). Você deve estar se perguntando porque tomo o mesmo composto que tem na bateria de um celular (e também é usado pra fazer vidros a prova de fogo e na fabricação de alumínio). O lítio é um dos estabilizadores de humor mais antigos, desde 1948 ajudando pessoas como eu a viver. O lítio é complicado e os efeitos colaterais são chatos: ir ao banheiro o tempo todo, boca seca, hipotireoidismo, dificuldade de fazer exercícios e problemas de cognição. Também tenho que fazer exame de sangue e controlar assiduamente os índices no sangue porque a dose terapêutica é bem similar a dose tóxica, que pode matar.

Ou foi a terapia. Ou a meditação. Ou a corrida. Ou a diminuição de stress no trabalho. O problema de ter uma doença mental é que não dá pra fazer um exame de sangue e descobrir se você está bem ou mal. É tudo muito subjetivo e depende de muitos fatores. No momento estou tentando uma nova dose de remédios que potencialmente pode me deixar meio vegetal por algumas semanas, mas pensando no longo prazo vai ajudar.

Ao contrário do que muita gente pensa, quem tem transtorno bipolar não varia como relatei acima durante o dia ou muda de ideia o tempo todo. As variações ocorrem em média de semanas e nem sempre são constantes. No meu caso tive que ficar fazendo um diário de como me sentia quatro vezes ao dia durante meses até descobrir o período, mas não garante que as coisas podem mudar. Álcool e drogas pioram tudo e no começo do diagnóstico eu insistia em usá-los, mas essa história fica pra próxima.

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